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Dos anos 1960, desenho ‘Os Jetsons’ é uma luz de otimismo diante do que vivemos

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

21 de março de 2020 | 03h00

Há uns dias, num metrô abarrotado, na época em que andávamos despreocupados de metrô, voltando altinho de um jantar regado de vinho rosé, na época em que saíamos para jantar, vi uma imagem nas telas dos monitores dos vagões, um desenho, um delírio utópico, num mundo em pânico: os Jetsons em seu carro voador, que mais parecia um disco voador, que fazia um barulho que toda criança da minha geração imitava com a vibração dos lábios ao correr, um agudo “brrrrrrrrrrrrrrrrrr”, que diminuía ao pousar. 

O desenho estreou no começo dos anos 1960, antes dos Beatles, o mundo tinha fé em si mesmo, depois de séculos de guerras globais, e a geração boomer estava na escola pública. George Jetson tinha um emprego estável. Jane, a mãe, era do lar, vivia a subserviência da sociedade patriarcal e dividia as tarefas com uma robô que usava avental. 

George trabalhava por apenas três horas na Spacely Sprockets, em que chegava por uma esteira. O casal de filhos, Judy e Elroy, completava o retrato de família ideal do sonho americano branca (são todos loiros ou ruivos). Os negros na vida real continuavam segregados no Sul, e o movimento dos direitos civis começava a ganhar força. 

O mundo vivia um boom econômico. Na abertura, papai vai em sua nave catapultando os filhos na escola. Elroy fica na Little Dipper (Fraldinha), Judy, na Orbit High School. Jane rouba sua carteira e fica no shopping center.

A atração de Hanna Barbera exibida pela Globo se passa em 2062 e foi o primeiro programa em cores da ABC. Minha geração imaginava que, sim, o futuro seria exatamente como aquele: torres redondas suspensas que pareciam tocar as nuvens, carros voadores, domésticos robôs, comida pronta que sai de uma máquina ao apertar um botão. 

Em Os Jetsons, usam escovas elétricas, as ruas espaciais estão congestionadas, voam a 2 mil milhas/hora, e as pessoas são brutas e praguejam no trânsito. Ao chegar em casa reclamando da jornada estressante de três horas, papai toma um dry martini e fuma um cigarro. Oferecidos por uma máquina. 

O resgate do desenho foi um tremendo achado num mundo distópico. Em que a previsão do seriado de 60 anos atrás acertou, e até aonde fomos?

Temos internet das coisas; Jane ejeta o marido da cama por uma espécie de controlador na cozinha. Alexia e o assistente do Google controlam uma casa. Robôs falam e interagem com os humanos. Aspiradores robóticos estão disponíveis em qualquer birosca de eletrônicos. Inteligência artificial e algoritmos são as leis da rotina atual.

Mas carro não soltaria fumacinha. Seria elétrico, a plasma ou à base de hidrogênio líquido (soltaria água). A Jane atual não rouba a carteira de um marido, e pode ser casada com outra mulher, trabalhar em jornada dupla. Porém, shopping center virou um templo de consumo no mundo todo. A TV do seriado é 3D e plana. Acertaram. Jane está sempre de dieta e vê com amigos o ídolo pop pela TV. Acertaram. 

Todos usam roupa de helanca. Mas George trabalharia hoje em dia 15 horas por dia num office que não é dele, iria num carro que não é dele. A comida viria de um aplicativo. Muitas vezes em casa, pelo celular, com direitos trabalhistas reduzidos, provavelmente autônomo, pagando um plano de saúde caro, num mundo hiperconectado não imaginado pelos roteiristas, não fumaria. 

Num dos episódios, feito quando as viagens espaciais começavam, Elroy vai à Lua. O último homem a pousar lá foi o geólogo Jack Schmitt em dezembro de 1972 na Apollo 17. Por enquanto, muitas promessas turísticas de empresas privadas autorizadas pela Nasa: voos suborbitais, como os da Virgin, Boeing e SpaceX, de Elon Musk. 

Carro voador existe em protótipo aos montes. Mas nenhum em linha de produção. Nem se sabe se o espaço é melhor estrada que o mundo subterrâneo com vias descongestionadas, como planeja Musk. O casal falava via vídeo com a família e o trabalho. Nesse ponto, acertaram em cheio. Mais e mais, fazemos chats via internet, especialmente via celular.

George planejou se clonar, para que outro George fosse ao trabalho. Depois da ovelha Dolly, questões éticas sobre a clonagem humana foram levantadas. As pesquisas não avançaram, até onde sabemos. 

Mas o que mais nos fascinava eram as torres flutuantes, com apartamentos cheios de janelões, e o elevador a vácuo, como um tubo num parque de diversões. Na “futurista” Barra da Tijuca, pensaram em torres redondas como as do desenho. Poucas vingaram. O Hotel Nacional, em São Conrado, faliu. Vidigal e Rocinha, favelas vizinhas, cresceram e dominam a paisagem. A arquitetura vislumbrou, urbanistas planejaram, mas esbarraram numa política econômica que empurra muitos para a pobreza. Há 60 anos.

O desenho é uma luz de otimismo diante do que vivemos: catástrofe climática, derretimento das calotas, abundância de CO2 na atmosfera, queimadas, aumento do nível dos oceanos, entulhados de plástico, escassez de água potável, aumento da desigualdade social, xenofobia, ódio em redes sociais, fake news, depressão entre adolescentes e jovens viciados em internet, ascensão de regimes autoritários, nacionalismo e, agora, a pandemia de um vírus mutante desconhecido muito letal. 

A família Jetson nunca deixará de fazer parte do nosso imaginário. Quem sabe, se sairmos dessa, podemos nos reorganizar e viver numa sociedade pura e harmônica, como a de um desenho dos anos 1960, com igualdade racial e de gênero.

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