Brown, o pacificador

James Sullivan conta como reconstituiu em livro a fantástica noite em que o Rei do Funk domou o país conflagrado

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

Nos Estados Unidos, o dia seguinte ao assassinato de Martin Luther King, 5 de abril de 1968, trazia o prenúncio de uma tragédia. Quase todas as regiões metropolitanas estavam conflagradas: vandalismo, saques, violência. Boston, local onde Luther King tinha se formado em Teologia, era uma das cidades mais caóticas: carros virados e incendiados, 13 pessoas feridas, 50 policiais da tropa de choque nas ruas do bairro de Roxbury.

Naquela noite, um dos maiores ídolos populares da juventude negra americana, James Brown, tinha um show marcado na cidade, no Boston Garden, para 14 mil pessoas. O prefeito queria cancelar, temia que a aglomeração estimulasse o confronto. Brown não só não concordou, como achou por bem transmitir ao vivo pela TV local. Enfrentou de peito aberto um início de revolta. Considera-se que, ao empunhar como hinos pacifistas canções como Please, Please, Please, ele tenha ajudado a conter um massacre.

Trinta e oito anos após aquela noite, em 2006, o repórter James Sullivan tinha uma entrevista marcada com James Brown. Falaria com o cantor no réveillon. Na noite de Natal, seu pai entrou na sala de sua casa e disse: "Você não imagina quem acaba de morrer: James Brown!" Sullivan estava escrevendo justamente o livro O Dia em Que James Brown Salvou a Pátria.

"James Brown representava a convergência entre política e cultura popular. Ele tinha um poder social que, acho, ele mesmo não conhecia, mas, no tempo dos Direitos Civis, ele veio a se dar conta de que, por meio da música, tinha a oportunidade de falar às plateias sobre os direitos dos negros", contou Sullivan esta semana, em entrevista por telefone ao Estado. Repórter do Boston Globe e colaborador de publicações como Rolling Stone, ele não desistiu da empreitada após a morte do artista. Entrevistou os músicos, o ex-prefeito de Boston, astros da black music de diversas gerações.

"Mr. Brown, como ele era conhecido, veio a se tornar, meio a contragosto, uma figura da cultura popular muito poderosa na América. Eu ousaria dizer que foi o homem negro culturalmente mais significante, com a possível exceção de Muhammad Ali", explica o autor. "As pessoas negras de Boston que sabiam a respeito de James Brown o aguardavam pela TV, e quem não sabia quem ele era passou a conhecê-lo a partir daquela noite no Boston Garden."

Combustão. Para Sullivan, "assim como João Gilberto influenciou a bossa nova", Brown é um dos pilares da black music e a música que criou é das mais influentes do século 20. Mas, mais importante quanto às suas composições era seu poder como performer, sua combustão no palco. No livro, ele também analisa as contradições da personalidade do artista, que ? modelo e líder da causa da independência dos negros ? dava tiros em desafetos, bebia, usava drogas e vivia sendo preso. "Como muitas figuras da política ou da religião, ele vivia dividido. Passou a vida ajudando os outros, mas havia uma luta dentro dele, como se tivesse de se colocar à prova o tempo todo. Era um conflito intenso."

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