Brown dupla face

Compositor lança dois álbuns contrastantes, um intimista e outro extrovertido, e volta a fazer shows no Brasil, depois de passar anos mais presente em palcos internacionais

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h00

Carlinhos Brown, o timbaleiro-tribalista, retoma sua carreira no Brasil, depois de anos mais presente no cenário internacional, com dois álbuns simultâneos e contrastantes: Diminuto (intimista e orgânico) e Adobró (dançante e eletrônico). Parece um contrassenso que - como Moska, Nina Becker, Zeca Baleiro, Maria Bethânia, Francis Hime, Skank - ele venha a engrossar o rol dos artistas que chegam ao mercado, a despeito da tão propagada crise de vendas de CDs, com trabalhos duplos. Lançados pela Sony Music, os discos tiveram patrocínio do projeto Natura Musical e Diminuto está disponível para download grátis e legal até o dia 21 de novembro.

"Somos a indústria, não o mercado. Quem está com deficiência é o mercado, não nós, que produzimos", justifica Brown. "E ainda há muitos consumidores de CD. Eu defendo o conceito do CD, muito mais do que o produto físico. O que é a internet para a música? Um agente compilatório, não é conteúdo", diz. Envolver-se com o conteúdo para ele não é apenas ouvir música, mas saber quem a está fazendo. E saber que para que o produto seja finalizado é preciso reunir uma equipe.

Brown iniciou a turnê Romântico Ambiente (título de uma faixa de Diminuto) em Salvador no dia 22, tocaria no Recife ontem e depois vai ao Rio (10/11) e Fortaleza (11/12). Ainda não tem data definida para São Paulo, onde não se apresenta há muitos anos. Quer vir para cá, provavelmente em janeiro de 2011, combinando show com exposição de suas pinturas. Ele diz que vê o patrocínio que recebeu da Natura como uma espécie de mecenato, diferentemente da maioria dos patrocinadores, que "não viram parceiros". O orçamento que tinha disponível não cabia para dois discos, "mas era um empurrão", então ele bancou a parte que faltava.

Brown tem muita música no acervo, então por que não botar pra fora de uma vez? Só que o que apresenta agora é um pouco diferente do que os fãs da Timbalada ou dos Tribalistas conhecem dele, embora haja elementos de ambas as partes nos dois discos e também ressoem em trabalhos solos anteriores. "Quis fazer um disco de canções, mais "raiz", com sambas, melodias e o Nordeste", explica, referindo-se a Diminuto. "Queria fazer samba, mas também fazer sertanejo, mas não esse contemporâneo, mas o sertanejo calcado na força étnica dos celtas, desde o norte da Europa até a Galícia, e o Brasil de Luiz Gonzaga, Edu Lobo e Dominguinhos." E daí as influências exemplares que eles têm sobre Maria Bethânia, Marisa Monte e até a própria Timbalada e o Olodum, como localiza Brown.

Embora já tenha composto diversos sambas - como Vide Gal, que foi lançado por Daniela Mercury e regravado por Mart"nália e Martinho da Vila para a trilha do filme Era Uma Vez... (2008), de Breno Silveira -, Brown nunca tinha gravado tantas canções do gênero como em Diminuto. E aqui ele se cerca de feras cariocas, como o cavaquinista Mauro Diniz, o violonista Gabriel Improta e o baixista Alberto Continentino. Até o sogro Chico Buarque diz um texto de Brown no sambolero Mãos Denhas.

Fluência no samba. "Meu parentesco distante com Assis Valente, me dá essa noção de que meu samba não tem morada ou estação", diz Brown. "Meu mestre Pintado do Bongô foi que me falou muito sobre isso. E por mais que ele tenha me ensinado sobre samba, foi enfático ao dizer que bom sambista é aquele que toca tudo, não apenas samba. Foi ótimo eu ter ido pro lado do pop-rock, pro carnaval, mas o samba é talvez o tipo de música que eu faça com mais fluência." Ele cita como exemplos os sambas melódicos O Bonde do Dom, Universo ao Meu Redor (gravados por Marisa Monte, sua parceira) e Margarida Perfumada, hit retumbante da Timbalada nos carnavais de rua. "Um dos mais bonitos que já fiz é Samba Sinfonia, em que chamei Alcione pra cantar comigo."

Além de novos agregados, como o multi-instrumentista Marcelo Jeneci, que toca acordeão e piano de armário em Vi, Voou e Pestaneja, Brown conta em Diminuto com diversos parceiros de projetos anteriores, como os músicos Davi Moraes, Pedro Baby, o arranjador Jaques Morelenbaum, os produtores Alê Siqueira, Beto Neves e Liminha.

Os Paralamas do Sucesso, que participam de Verdade, Uma Ilusão (parceria dele com Arnaldo Antunes e Marisa Monte), também tocam em Yaraha, de Adobró. O número de participantes nesse outro álbum não é menor, tendo o baiano Mikael Mutti e o americano Carl Golembeski como destaques na produção. Outra curiosidade é o cineasta espanhol Fernando Trueba falando um texto incidental de Carlos Rennó em Desde. Trueba, que se considera "quase baiano", dirigiu O Milagre do Candeal, em que mergulha na ligação do trabalho musical e social de Brown no bairro de Salvador, onde tem um complexo de estúdios, Ilha dos Sapos, onde grande parte dos dois discos foi gravada.

Eletrônica artesanal. Muito antes do álbum duplo Candyall Beat (2004), o músico já tinha feito experiências com a eletrônica que anima Adobró. No primeiro álbum solo, Alfagamabetizado (1996), ele colocava fader no bongô, como relembra agora. "A eletrônica que eu busco tem de ser artesanal", diz. Ou seja, ao usar sampler não copia nada já feito, apenas filtra pelas ferramentas eletrônicas os sons que produz organicamente.

Brown conta que agora pretende realizar uma sinfonia urbana, em que a proximidade com o mar deve dar um tom poético.

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