Broadway encena sucessos de Hollywood

A data mágica da Broadway já foi deliberada: 1.º de maio. Nesse dia, acaba a elegibilidade para as peças e musicais participarem do prêmio Tony, que neste ano será realizado no dia 2 de junho. A nova cerimônia do Tony promete ser um desfile de celebridades mais comumente vistas no evento considerado o primo rico do evento nova-iorquino, o Oscar. Liderando as mais de 40 atrações prometidas para as próximas 11 semanas estão atores como Kevin Bacon, Billy Crudup, Laura Linney, John Lithgow, Frances McDormand, Liam Neeson, Chris O´Donnell, Bill Pullman, Mercedes Ruehl, Alicia Silverstone e Kathleen Turner, entre outros. A nova temporada teatral americana já tem até tendência diagnosticada de antemão: com o sucesso do musical The Producers, baseado num filme de Mel Brooks, começam a proliferar adaptações de filmes de Hollywood para os palcos. Mas antes que Rocky, um Lutador ou Legalmente Loira não comecem a formar filas nas portas dos teatros da região do Times Square, duas releituras de filmes famosos sustentam o interesse: A Primeira Noite de um Homem, dirigido por Mike Nichols, em 1967; e A Embriaguez do Sucesso, de Alexander Mackendrick, de 57. The Graduate/A Primeira Noite de um Homem, que estréia em abril, promete fazer mais estardalhaço. Até o momento, a peça já vendeu cerca de US$ 3 milhões em ingressos antecipados, uma das melhores performances da Broadway em se tratando de um espetáculo que não é musical. Tal apetite inaugural tem razões. Além de ser puxada por um elenco de presença constante em teen movies - Alicia Silvertsone e Jason Biggs, este da série American Pie -, a peça tem uma polêmica cena de nudez feita pela atriz Kathleen Turner. Kathleen é a Mrs. Robinson, mulher madura que enfeitiça o jovem namorado da filha. No filme de Nichols, esses personagens eram interpretados respectivamente por Anne Bancroft (na época com 37 anos, ante os 47 agora de Kathleen), Dustin Hoffman e Katharine Ross. A direção de The Graduate é de Terry Johnson, que também adaptou uma combinação do livro original de Charles Webb e do roteiro de Hollywood escrito por Calder Willingham e Buck Henry. Como no filme, a peça ainda conserva algumas das canções escritas por Paul Simon. Kathleen, que originou a Mrs. Robinson teatral há dois anos no West End, foi substituída nos palcos londrinos por Jerry Hall, a ex-mrs. Mick Jagger. Estreando em março, o musical Sweet Smell of Success marca a reunião da música de Marvin Hamlisch (Oscar pela trilha de Nosso Amor de Ontem), com letras de Craig Carnelia e libreto de John Guare (o dramaturgo de Seis Graus de Separação). O espetáculo atualiza o filme de Mackendrick, que teve vigorosas atuações de Burt Lancaster e Tony Curtis. O primeiro vivia um poderoso e ferino colunista social, considerado o ´abatedor´ do show biz nova-iorquino, enquanto Curtis era o desacreditado assessor de imprensa de celebridades, tentando enfiar notinhas sobre seus clientes na página de Lancaster. John Lithgow e Brian D´Arcy James assumem esses papéis. A direção é do cineasta inglês Nicholas Hytner (de As Loucuras do Rei George). Apesar do glamour hollywoodiano de The Graduate e Sweet Smell, nenhum desses espetáculos deverá destituir a peça The Goat or Who Is Sylvia?, que estréia no dia 10, do posto de o mais controverso texto a ser encenado este ano na Broadway. O novo trabalho do aclamado dramaturgo Edward Albee é estrelado por Bill Pullman e Mercedes Ruehl, mas a principal sensação da peça é mesmo Sylvia, uma cabra branca. Na peça, Pullman, que interpreta um arquiteto, vem a desenvolver uma paixão por esse animal. Mas, em se tratando do universo de Albee, não haverá bestialidade inclusa. A cabra seria um símbolo para expressar o desejo sexual reprimido. Albee, choca mesmo é com o personagem do filho de Pullman, um homossexual que faz investidas amorosas no pai. Embora Albee detenha hoje o título de "o dramaturgo mais importante em atividade do teatro americano", Arthur Miller está voltando para reclamar o posto que lhe pertenceu nas décadas de 40 e 50. Miller está por trás de dois revivals de seus textos: As Bruxas de Salem (The Crucible) e Homem de Sorte (The Man Who Had All the Luck). As Bruxas, a ser estrelada por Liam Neeson e Laura Linney, já vendeu cerca de US$ 2 milhões em ingressos antecipados. A peça, de 1953, usa a história de um vilarejo ameaçado por bruxaria como resposta ao senador americano McCarthy, à cruzada que o Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso realizou para aplacar os possíveis simpatizantes do comunismo nos EUA. "Trata-se de uma nova leitura da peça, mas ao mesmo tempo as passagens continuam bastante literais", explicou a atriz Laura Linney, durante um dos intervalos dos ensaios. "Miller está acompanhando tudo e é uma figura extremamente icônica, apesar de ser bastante acessível." A nova adaptação de The Crucible, que terá apenas 120 apresentações, é dirigida por Richard Eyre, o diretor do filme Iris, atualmente em cartaz nos cinemas americanos. Já Homem de Sorte marca a volta da primeira peça escrita por Miller para a Brodway, na década de 40. Chris O´Donnell repete a montagem de Los Angeles no ano passado, interpretando David Beeves, pacato interiorano que tem toda a sorte do mundo, mas começa a ficar obcecado com o dia em que o destino o deixar na mão. Disposta a ficar afastada do cinema, uma vez que vem recebendo propostas nada tentadoras de Hollywood, Frances McDormand, Oscar de melhor atriz por Fargo, começou na semana passada uma limitada temporada da tragédia Fedra. Frances, no entanto, não assume o papel da heroína que cai em desgraça ao se apaixonar pelo enteado, mas sim o da sua criada. Entitulada To You, the Birdie!(Phédre), o espetáculo é uma releitura da peça que Racine escreveu em 1677 pela companhia teatral fundada pelo ator Willem Dafoe, a Wooster Group. Apresentada num novo espaço da Wooster, um velho moinho de condimentos abandonado no bairro do Brooklyn, To You segue o caráter modernista da companhia, abusando de monitores espalhados pelo galpão (que exibem cenas captadas por câmeras escondidas) e até uma partida de Badminton, espécie de tênis jogado com raquetes e petecas e que virou modalidade olímpica, em Barcelona, em 1992. A nova temporada da Broadway ainda traz dois jovens atores de Hollywood aos palcos: Billy Crudrup e Kevin Bacon. O primeiro, que recentemente apareceu no filme Quase Famosos, está à frente do revival de O Homem Elefante, texto de Bernard Pomerance já adaptado para o cinema por David Lynch. Crudup interpreta John Merrick, o jovem inglês que nasceu com uma deformação facial e foi usado como atração freak em shows circenses. Já Bacon, que sempre procurou desvincular sua imagem do filme Dirty Dancing, aparece em An almost Holy Picture, comédia sobre zelador de uma igreja que escuta a voz de Deus e inicia jornada de fé. Voltando à Broadway de carpete vermelho está a excelente atriz Elaine Stritch (que trabalhou com Woody Allen em Setembro e Trapaceiros). Ela tem um show-solo no Public Theater, com apenas 80 apresentações. Já na comédia Mr. Goldwyn, que estréia em março, o ator Alan King faz o temido produtor de Hollywood, fundador da Metro. No campo dos veteranos ainda surge a atriz Shirley Knight que, em companhia de Diane Venora (mulher do cineasta Michael Mann), assume o papel de protagonista do aguardado novo trabalho da dramaturga Eve Ensler, autora de Monólogos da Vagina. Necessary Targets conta a história de duas americanas - uma psiquiatra e uma autora - que viajam para a Bósnia a fim de ajudar refugiadas da guerra civil do país a confrontarem suas memórias de guerra.

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