Britney ou me engana que eu gosto

Fãs enchem a Arena Anhembi para ver Britney Spears cantar com playback

O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2011 | 03h05

O prazo da diva é semelhante ao do craque. Ambos fervem cedo, assinam contratos milionários, guinam os quadris para o delírio das gerais. Personificam sonhos adolescentes, tornam-se o status quo e entardecem com mais ou menos dignidade, dependendo do teor de talento. Até que é chegada a hora de parar.

É mera especulação dizer o quão embrenhada nesta última fase está Britney Spears, mas sua falta de tesão, tanto no mediano novo disco Femme Fatale, quanto ao vivo, em São Paulo, indicam que a aposentadoria seria uma vantajosa preservação de seu legado.

Como já foi repetido ad nauseam, Britney não canta, dubla. Os fãs adultos (muitos deles casais gays) que compareceram à Arena Anhembi, na sexta-feira, foram para vê-la encenar suas músicas. E do início ao fim, a voz certeira, gravada em estúdio, destoou dos números atléticos oferecidos pela cantora e seu pelotão de dançarinos - estes, um dos pontos positivos da noite, pois volta e meia roubavam a cena com demonstrações de vigor físico circense.

Mesmo assim, dois DJs e um playback eliminam qualquer chance que Britney teria de escapar da banalidade.

Um texto em "mute" facilita para analisar o que realmente é feito ao vivo. Como no show de qualquer diva, a rotina burlesca de Britney traz uma gama de fetiches, de gueixa, a dominatrix, a Sherazade. A sensualidade pouco velada das canções (em Big Fat Bass, de Femme Fatale, ela canta: "O grave está crescendo, o grave está crescendo, crescendo") a obriga a ser desmedidamente sexy. O que, depois de filhos e uma extensa lista de vexames públicos, não parece ser sincero. O resultado é uma vulgaridade pueril como a da insegura personagem cheerleader que cativa Kevin Spacey em Beleza Americana. Britney rebola, mas sua aura de safadinha não é a sombra do que foi nos idos de Oops!... I Did it Again, entre outras. A sedução é barata e a forma mecânica com que dança e vive sua femme fatale se aproxima mais da entediante realização de um emprego temporário - modelo de salão de automóvel, assistente de mágico, teleprofessora de aeróbica - do que de algo digno de uma diva com seu histórico de hits, o mais novo deles sendo o altamente eficaz I Wanna Go, deste ano.

Tirando do "mute", a balada não é tão ruim quando parece. Isto é cortesia do galáctico time de produtores - de Max Martin ao cobiçadíssimo Dr. Luke - que compôs a discografia de Britney Spears. Se a cantora não tem mais o dendê de antigamente, as batidas servem para nos lembrar de seu auge. As melhores são arrastadas e viscosas, como I'm a Slave 4 U ou Lace and Leather, que tem um espertíssimo "slap" de contrabaixo.

Ao vivo, o bum tchi bum lascivo de Toxic, um dos marcos de sua carreira, foi trocado por uma versão trance lastimável, um resumo da proposta do show, que animou a plateia mais como evento do que espetáculo. Além de seus hits, Britney também fez um cover de Rihanna, com S&M. A base é a mesma e a voz processada quase confunde uma com a outra, mas Rihanna é mais cantora.

Crítica: Roberto Nascimento

JJJJ ÓTIMO

J RUIM

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