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Lúcia Guimarães
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Brioches e amnésia

A rotina se repete a partir das seis da manhã, quando o mercado gourmet abre as portas. A esta hora, o balcão de peixe, onde um quilo de lagostim custa R$ 330, ainda está fechado. A sofisticada padaria que produz croissants e brioches continua escurecida. Os fregueses madrugadores não podem comprar nenhuma destas guloseimas. Muitos nem sabem designá-las pelo nome, mas felizmente serão atendidos em espanhol num balcão onde a fila se forma cedo. Impossível não notar a predominância étnica de descendentes de indígenas do Equador, Guatemala, México. Eles evitam contato de olhos. Sua expressão corporal confirma que são presenças passageiras naquele mercado, cuja filial não frequento nem no meu bairro por causa dos preços exorbitantes. Pagam em dinheiro vivo por um sanduíche de ovo com presunto e um café com leite o equivalente a até dez por cento do que vão receber em dinheiro vivo ao fim do dia de trabalho braçal.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

21 Setembro 2015 | 02h00

A cena descrita acima seria comparável a ver o mercado gourmet Eataly de São Paulo ser invadido na hora do café da manhã por imigrantes haitianos ainda sem documentos. É uma situação peculiar deste enclave dos doze códigos postais mais valorizados das Américas. O boom imobiliário tornou inviável a proximidade de lanchonetes para alimentar tantos jardineiros, carpinteiros, faxineiros, babás, cozinheiras, todos imigrantes latinos sem documentos que mantêm funcionando o playground de verão dos Hamptons. Como os serviços na região são mantidos para privilegiar o automóvel, a única linha de ônibus que traz os boias-frias da cidade de classe média a uma hora de distância faz uma parada perto da porta do tal mercado gourmet. E ali eles se empapuçam como podem. Muitos alugam quartos, suas mulheres ficaram para trás e eles não têm como cozinhar marmitas.

Um colérico hedge funder que me matava de tédio num jantar recente não estendia sua perspicácia à constatação da ironia que o cercava. Enquanto vituperava contra o que considera o esquerdismo de Barack Obama, a trinta metros de distância, entre as dálias e rosas do jardim imaculado, podíamos avistar as costas curvadas de um guatemalteco que não vê a família há nove anos.

Neste verão que acaba de se encerrar, os democratas Hillary e Bill Clinton contemplaram, na mesma região, um jardim muito maior, com gramado a perder de vista muito bem aparado. Pagaram US$ 110 mil por duas semanas de aluguel da mansão de praia de um colecionador de arte republicano. Será que a campanha presidencial mais cautelosa e paranoica desta temporada mandou uma tropa avançada conferir se o exército de cortadores de grama e limpadores de chaminé e piscina estavam com os vistos em dia? Hillary não estava lá descansando e sim recolhendo dinheiro de doadores bronzeados. Se chegar à Casa Branca, ela promete dar alguma esperança ao guatemalteco que deixou sua filha de cinco anos e não sabe usar Skype.

Mais grave é a asquerosa retórica anti-imigrante puxada pelo candidato republicano de cabeleira abóbora - podemos desinfetar a coluna de seu nome esta semana? Sua proposta de violar a Constituição - expulsar cidadãos americanos que vieram do útero de imigrantes sem documentos - chocou americanos progressistas que não sabiam que um presidente americano fez exatamente isso: expulsou cidadãos americanos de origem mexicana, quando a Grande Depressão de 1929 provocou desemprego em massa. O então presidente Herbert Hoover criou um programa de “repatriamento” forçado para mais de 1 milhão de residentes nos Estados Unidos, a maioria na Califórnia, e 60% dos que foram embarcados para o México eram cidadãos americanos. Só na década passada as escolas californianas incluíram este episódio de vergonha nacional no currículo de história.

No mercado gourmet dos Hamptons, se acaba o pão, ninguém oferece brioches aos cabisbaixos boias-frias. Mas a sensibilidade local lembra a imigrante rainha da França que fez isso no século 18.

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