Brinquedo novo

Em entrevista exclusiva ao 'Estado', Pat Metheny, que foi confirmado essa semana como principal atração do BMW Jazz Festival, em junho, explica seu intuito

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2013 | 02h11

The Orchestrion Project foi apresentado na antiga igreja de São Elias em Greenpoint, no Brooklyn, Nova York, em novembro de 2010. O guitarrista Pat Metheny estava sozinho no centro do palco, cercado por uma engenhoca que incluía baixos, pianos, instrumentos de percussão, marimbas, guitarras-robôs, uma seção de garrafas. A partir de computadores e um software que desenvolveu, mais uma gama de pedais, Metheny tocava tudo em tempo real.

Acostumado ao assombro, Metheny provocou acalorado debate: estaria ele sugerindo que os músicos poderiam ser eliminados da música no futuro? Em entrevista exclusiva ao Estado, Metheny, que foi confirmado essa semana como principal atração do BMW Jazz Festival, em junho, explica seu intuito. E também fala do show que traz a São Paulo com a Unity Band, com o qual ganhou, em fevereiro, o seu 20º prêmio Grammy.

Você viveu no Rio de Janeiro por um tempo. Como foi aquela época?

Foi há mais de 20 anos. Honestamente, quando eu penso em minha vida entre 1974 e 1996, se eu disser que me lembro bem de qualquer dos lugares em que vivi, estarei mentindo. Porque naquela época eu fazia mais de 250 concertos por ano, eu estava a maior parte do tempo viajando, e quando eu tinha um tempo para descansar eu realmente descansava, fosse no Rio ou em outro lugar. O que eu posso dizer é que eu adorava a cidade, tinha uma grande conexão com muitos aspectos da cultura, com a música. Admirava a beleza da cidade, e era uma grande chance para mim passar um tempo no Brasil, porque aqui estavam muitos dos músicos que eu admirava.

Você se tornou um bom amigo de Toninho Horta, não?

Sim. E de muitos outros. Mesmo antes de ir morar no Rio eu já tinha muitos amigos no Brasil. Há dois músicos que eu realmente admirava, que eram Horta e Tom Jobim. E também Milton Nascimento, Ivan Lins, dois músicos que eu realmente amo. Era como estar por perto de Sonny Rollins, Ornette Coleman, Gary Burton. Toda minha vida eu tive sorte de não só colaborar com músicos que admiro, como também ter me tornado amigo deles.

Você lançou um projeto controverso, Orchestrion, no qual toca vários instrumentos sozinhos, com máquinas. Tecnologia sempre foi objeto de uma discussão sobre distopias. Escritores, como George Orwell, H. G. Wells, Philip K. Dick, em suas obras, alertaram sobre os perigos da automação do ser humano. O que acha desse debate?

Quando você iniciou a pergunta com "projeto controverso", eu fiquei imaginando a qual deles se referiria. Você pode incluir essa palavra em 5 ou 6 outros projetos meus (risos). Orchestrion suscita muitas perguntas, a primeira sobre quão excêntrico eu sou em meus gostos musicais. Acho que, primeiramente, eu o considero uma representação verdadeira de coisas que eu imaginava quando eu era muito criança. Meu pai tinha um piano no porão, que não era só um objeto de fascinação para mim - eu imaginava aquele artefato como uma espécie de cruzamento entre a antiguidade e a ficção científica. Muitas vezes eu achava que podia se tocar sozinho. Foi uma visão que me acompanhou durante a vida, mesmo na vida adulta. Mas, para responder à sua pergunta, digo o seguinte: eu sou um guitarrista, e meu primeiro ato como guitarrista é me plugar em uma tomada. Meu instrumento requer eletricidade, cabos, tensão. Cada aspecto do instrumento que eu adotei, que é um instrumento dos últimos 50 anos, mostram o que ele representou, uma revolução tecnológica. E, além de alto-falantes, eletricidade e cabos, para mim, tendo vivido na linha de frente dessa revolução musical, ao lado dos primeiros caras a incorporar sintetizadores e sequenciadores às bandas que eu capitaneava, eu tenho que admitir que o poder da instrumentação acústica do lado contrário dessa revolução. O poder de um único violão ou um piano numa sala é imenso. Alto-falantes ainda não fazem justiça àquele som. Então, daquele antigo impulso de quando eu tinha 9 anos de idade, nasceu esse projeto que aplica as possibilidades de colocar juntos instrumentos desplugados, e então gravar um disco com essa experiência, e também um DVD, para as pessoas realmente conhecerem o processo. Quando o disco Orchestrion foi lançado, eu dava entrevistas como essa e ainda era muito difícil para mim explicar o álbum. Honestamente, houve uns 8 diferente músicos e críticos a quem enviei o disco e que me disseram que aquilo ali não era nada além de música. A tentativa de explicar como eu fiz é mais complicada. Há dois tipos de avaliação. Há pessoas que veem todo tipo de experiência nova como um salto no escuro, e é a parte mais numerosa da população, infelizmente. E há as pessoas que veem mais da forma como eu vejo: a ideia da música e da arte é a criatividade, é você fazer perguntas que nunca foram feitas, procurar por coisas que nunca existiram. Para mim, esse é o ponto. Para mim, arte sempre foi a busca de coisas que nunca tenham sido feitas, seja como espectador. Esse projeto particular foi uma jornada incrível pelo desconhecido, em muitos em muitos aspectos. Mas eu posso dizer que apenas rocei as possibilidades. Em dois anos, quero voltar a ele, quero fazer um novo disco. Uma coisa que eu não vejo é como esse projeto substitua outra coisa. Não é melhor nem pior do que nada, é apenas diferente. É como um pintor que usasse óleos, aquarelas ou tinta acrílica e se desse conta que havia um encontrasse uma nova paleta de cores que nunca tivesse usado. Ele vai continuar pintando e contando histórias. Ele apenas tem agora novos ângulos e novas perspectivas para explorar. É diferente. Eu nunca limito as coisas, o que procuro é expandi-las.

Brad Mehldau também está vindo tocar no festival aqui. Vocês fizeram um disco juntos em 2006. Há alguma chance de vocês tocarem juntos aqui?

Eu nunca tenho ideia do que pode acontecer quando faço festivais como esse. O que geralmente acontece é que a gente faz muitos amigos, a comunidade do jazz é muito pequena e próxima. Mas, durante festivais, o máximo que acontece é você encontrar o amigo durante três minutos no lobby de um hotel, é mais comum. Quando vamos a outro País, vamos com uma perspectiva detalhada de como atuaremos, como será o show, porque o tempo ao vivo é curto. É raro encontrar um amigo para tocar apenas uma música. O disco que eu e Brad fizemos foi a primeira vez que tocamos juntos, e fizemos uma porção de concertos pelo mundo. Gravamos e o que pode acontecer é que a gente decida lançar aquele disco ao vivo. Olhei a programação e vi uma lista de amigos: Joshua (Redman), Esperanza. O que posso dizer é: nunca se sabe o que pode acontecer.

Há alguns fatos misteriosos sobre sua carreira. Por exemplo, seu novo disco com a Unity Band é o primeiro em 21 anos que você inclui um saxofonista. Qual é a explicação?

Mesmo naquela época, em 1981, eu já tinha uns 6 discos lançados na carreira. E cada um deles era uma vista alternativa do que a música poderia ser. E aquele disco 80/81 tinha dois caras que eu realmente queria ter ao meu lado naquele momento, (Michael) Brecker e Dewey (Redman). Brecker e eu sempre fomos muito associados como músicos e amigos. Gravamos também com Joni Mitchel, Lyle Mays, Pastorius e Alias. Mas aquele disco foi de fato um mistério, uma gênese para o próprio Brecker, que mostrava ali seu trabalho ao mundo. Ele mesmo dizia isso, foi muito importante para ele, todos sabiam quem ele era, mas ainda não representava sua música em disco. Aquilo o representou. A instrumentação, entretanto, era tradicional para mim, e eu gravitei depois, ao longo dos anos, mais em torno da guitarra do que dos metais. E também, para ser sincero, eu não encontrei mais outros saxofonistas dos quais eu dissesse: quero fazer algo com esse cara. Joshua (Redman) foi um dos que apareceu, e tocamos muito juntos. E Chris (Potter). Eles fazem parte dessa geração de ouro que surgiu mais recentemente, que inclui Christian McBride, Antonio Sánchez. Muitos com os quais tenho tocado são esses caras que estão em torno dos seus 40 anos. Eles não têm absolutamente nada em comum com a minha geração, são mais jovens, mas eu os ouço, ouço Josh, Brian Blade, e penso: isso era o que eu esperava. Não seria surpresa se esses caras também estivessem procurando por alguém como eu.

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