Brincando nos campos sem Senhor

Lá pela metade da excelente biografia de Schopenhauer, publicada agora pela Geração Editorial, o autor Rüdiger Safranski conta que o filósofo alemão escreveu no peitoril da janela de uma pousada em Rudolstadt, em 1813, um verso de Horácio: "Deve-se louvar uma casa que dá vista para os campos". Quarenta anos mais tarde, seus admiradores já peregrinavam até ali para conferir a inscrição, com Schopenhauer enfim famoso. Lendo a biografia numa casinha com vista para as colinas da Serra da Mantiqueira, em Gonçalves, me ocorreram alguns pensamentos: em como a leitura de poesia e filosofia foram importantes, mais até do que os próprios romances, para eu descobrir o prazer dos livros na adolescência; em como vivemos numa era tão acelerada, de cidades cada vez mais alheias ao tempo e às exigências da reflexão; e em como no século 19 as celebridades eram filósofos, escritores e compositores e agora são atores, cantores e atletas. Quem hoje peregrina para ver um verso anotado por um filósofo vivo no quarto onde escreveu sua obra-prima?

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2011 | 00h00

Ele tinha apenas 25 anos quando, isolado naqueles campos, encontrou a clareira intelectual de sua vida e começou a conceber O Mundo como Vontade e Representação. O trabalho de Safranski, muito mais que a cronologia de uma existência, é mostrar o alcance e a incompreensão que ainda persistem a respeito de Schopenhauer. Ele influenciou muito Nietzsche e Freud, o que significa que influenciou muito o pensamento modernista, assim como Machado de Assis e Kafka; mas ora é visto como um pessimista, desses que não acreditam na humanidade e no futuro, ora como um romântico, exaltador dos impulsos irracionais. Safranski faz excelente trabalho comparando suas ideias com as de Kant, Rousseau (estava mais perto de Kant do que de Rousseau) e dos idealistas da mesma geração, como Fichte e Hegel (que o tratou com condescendência, como Goethe), tudo sem perder o andamento narrativo - uma técnica para poucos.

Schopenhauer não apenas relativizou o papel da razão, que em Kant se converte em moral e em Hegel num poder, mostrando que o que define o ser humano é o fato de querer, de ser um corpo carente, submetido a intuições e impulsos contraditórios; mas também criticou os que dizem que "a gente não manda nos sentimentos" ou "paixões não se explicam" e acreditam na superioridade do coração sobre a cabeça, pois prezava acima de tudo o autoconhecimento e a consciência crítica. O que é mais moderno nele, e portanto raro de encontrar até hoje na maioria das pessoas, é essa noção de que as oposições são inconciliáveis, seja numa síntese ideológica seja numa transcendência religiosa - e o que nos cabe é viver com o mínimo de ilusões, cientes apenas de que "a essência da vida é a vontade de viver", na frase de Safranski. Dotados dessa vontade por natureza, devemos resistir à consequente inclinação de confundir desejo e realidade; devemos lutar para olhar além das aparências e das falsas novidades, escolhendo a cada instante entre desejos divergentes, em vez de seguir o caminho fácil da irresponsabilidade.

Para ele, a mente é ativa na percepção da realidade exterior, não um mero depósito de impressões, e por isso é preciso dar valor à imaginação, à empatia e à lógica, num ponto intermediário entre a arte e a ciência, no qual o prazer do conhecimento é fundamental. "A felicidade jamais foi considerada inoportuna", disse Schopenhauer, que em sua obra final, Parerga e Paralipomena, recusa o rótulo de pessimista ao observar que são as pessoas que acham que "Nosso Senhor fez tudo da maneira mais perfeita", duas frases que Safranski não cita. Por outro lado, consciente das dores e injustiças do mundo, que tanto vivenciou em suas relações pessoais, Schopenhauer também buscou na filosofia um consolo inatingível ao propor uma "libertação de todo o querer", uma "renúncia" quase ascética, que ele mesmo jamais atingiu - machista e irascível como era e incapaz de ver benefícios no progresso urbano.

Deitado na rede da varanda em Gonçalves, enquanto meus filhos brincavam nos gramados, terminei o livro com a sensação de prazer cumprido, para usar a expressão de Rubem Braga; louvei a vista e tomei o carro de volta para a vida de computadores, celulares e televisões, ao mesmo tempo menos iludido e mais sereno. O único pecado é não deixar a felicidade entrar e ficar.

Por que não me ufano (1). É amargamente divertido ver a presidente Dilma Rousseff sendo celebrada por sua "atitude" diante dos escândalos que, em apenas sete meses de governo, não param de se suceder. Além do caso Palocci, veio o do Ministério dos Transportes, loteado pelo Partido da República e no qual ela teria mandado fazer "faxina"; depois o da Agricultura, rachado entre PT e PMDB; mais recentemente o do Turismo, com ONGs contratadas no governo Lula, agora na alçada do mesmo PMDB. Lula, por sinal, mandou pegar leve com o partido de José Sarney e Michel Temer... Mas Dilma só reagiu, quando reagiu, ao ver que a imprensa tinha feito as revelações ou, no caso do Turismo, que a Polícia Federal tinha feito uma operação. Por iniciativa própria, que aliás era promessa de campanha, ela não fez nada. Pegar tudo isso para reforçar o suposto perfil técnico da presidente é, no mínimo, desonestidade intelectual. Tecnicamente, Dilma nem começou a governar.

Por que não me ufano (2). Analistas se esforçam para mostrar as diferenças entre a atual crise econômica e a de 2008, quando bancos quebraram em função da desregrada alavancagem de crédito e os governos tiveram de injetar dinheiro para superar a recessão. Mas, como muitos já alertaram na época, o processo nada tinha de "keynesiano" e esteve longe de representar "a volta do Estado" depois de duas décadas de "neoliberalismo", pois as máquinas públicas estão endividadas como nunca. Socorrer o mercado financeiro foi importante, mas as questões estruturais nunca foram realmente combatidas. Barack Obama, muito mais vítima do que vilão, tentou ir ao ponto, tanto cortando gastos como aumentando impostos, mas a força política dos republicanos do "Tea Party" o impediu, já que as crises econômicas costumam acalentar os discursos mais retrógrados. Na Europa, com exceção da Alemanha, os Estados não têm dinamismo e os sistemas produtivos não dão conta de gerar empregos, o que provoca ressentimento social e, no extremo, a cultura racista e revanchista de que se alimenta o terror.

O Brasil também não aprendeu as lições. É comum ouvir que temos reservas recordes, de US$ 350 bilhões, e que a crise é dos países desenvolvidos em face da ascensão da China e outros emergentes. Mas o Brasil depende demais das commodities, não por falta de aviso, e os cenários apontam que a subida dos preços do último decênio não tende a se repetir. Reformas não foram feitas, a taxa de investimento segue abaixo de 20%, a inflação leva à alta dos juros que leva à valorização do real. Como resultado, o PIB mal deve crescer 4%.

MÃE

Durante os mais de três anos desde que descobriu que tinha hepatite C, contraída numa transfusão de sangue em 1964, quando a doença nem sequer tinha sido caracterizada, minha mãe jamais se fez de vítima, jamais disse algo remotamente parecido com "que azar o meu" ou amaldiçoou seu destino. Enfrentou tudo como sempre enfrentou tudo na vida: com fibra, resignação, teimosia, sem sentimentalismo ou escapismo. Foi aos médicos, tomou as injeções, passou por três cirurgias. A doença e o tratamento lhe tiraram a mobilidade e ela ficava sentada vendo House e as novelas na TV, lendo jornal, falando horas ao telefone com as amigas e irmãs; mas sua maior alegria era ver os netos, depois dos quais se tornou mais suave e relaxada, e ao menos eles a puderam visitar no quarto nos últimos dias, apesar de sua consciência - antes sempre tão alerta - começar a faltar, sob efeito da encefalopatia e dos remédios.

Edith (com "th", como a Piaf) morreu aos 72 anos na última segunda-feira, depois de seis semanas de hospital (Santa Catarina, que a tratou com excelência), e deixou no marido, nos quatro filhos homens e nos dez netos uma sensação de ausência previsível, mas para a qual nunca existe "preparo". Ninguém está preparado para perder uma parte de si, e Edith estava sempre presente. Não fui criado para pensar na mulher como "sexo frágil" porque ela era o oposto disso. Era das melhores alunas do Pasteur e, depois, da História Natural na USP; foi professora de ciências na rede pública, em escolas como Lasar Segall, e mais tarde foi estudar Pedagogia para se tornar diretora; no começo, pagava a maior parte das contas, enquanto meu pai começava na medicina; aposentada, foi ajudá-lo na administração do hospital (Casa Verde). Nunca tinha preguiça e nunca deixou de dividir tudo com ele, parceira fiel.

Tinha temperamento difícil, como seu pai, Alfio Schievano, de quem pegou o gosto por óperas italianas (Puccini, Donizetti), mas tinha inteligência, responsabilidade e caráter raros, era mais orgulhosa que vaidosa - embora tão bonita - e demonstrava muito carinho com sobrinhos e afilhados. Como sua mãe, Antonieta, e suas irmãs, gostava de juntar a família, de aglutinar todos à mesa nas datas festivas ou, como fizemos tantas vezes entre 1975 e 1985, na chácara lotada também de amigos. Nos últimos anos, gostava muito de nos visitar aos domingos, e só me lembro de se queixar da restrição médica ao sal. Ao contrário do sal, como ela dizia, "personalidade é melhor sobrar do que faltar". Agora, não mais suas almôndegas, não mais suas opiniões, não mais sua força - apenas as memórias e o exemplo que elas vão sempre evocar. Descanse, mãe. E muito obrigado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.