Brincando com clichês e cacoetes

Não é regra, mas é uma constante no nosso panorama teatral a impostação solene dos espetáculos produzidos por novos coletivos teatrais. Talvez por receio de que a vida profissional não ofereça muitas oportunidades de encarar a vertente trágica da sua arte, os jovens iniciantes do palco preferem a seriedade ao riso. O coletivo teatral responsável pela criação de Corra como um Coelho é uma exceção que faz lembrar a regra. Com um humor cujo ritmo beira a velocidade histérica da farsa circense o espetáculo idealizado pelos jovens da Cia. dos Outros dispensa a condescendência que de um modo geral cerca os empreendimentos artísticos fundados em propósitos nobres. Neste caso, a empatia do espetáculo depende antes de tudo da execução habilidosa e por essa razão a substância da criação é o próprio teatro.

Análise: Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

Isso não quer dizer que, sob o risível, tudo é engraçado. A brincadeira desses artistas que entram na cena contemporânea equipados com o instrumento teórico e com as técnicas em voga no momento refere-se, ainda que de modo indireto, à suspeita de que tudo já foi feito e de que um dos procedimentos usuais da cultura de hoje é a devoração instantânea do novo. Abrindo a primeira sequência recorrente de um espetáculo com muitas repetições, há uma personagem inspirada nos dipsomaníacos de Dorothy Parker, figura que percorre um circuito de festas e se esforça para narrá-las sem conseguir vencer a névoa tóxica. O parentesco com a nativa Rê Bordosa é distante porque o que interessa ao espetáculo é desenraizar personagens ou situações da experiência cultural mais próxima. São empréstimos feitos a um repertório de importação direta, ecos que a linguagem teatral repete até que percam a significação de origem e se transformem em estereótipos de uso contínuo e gratuito.

Indício importante dessas apropriações é a cenografia do espetáculo, um amálgama irônico de recursos visuais emblemáticos: sofás, mesas, animais empalhados, tapete, enfeites e, enfim, uma incontável multiplicidade de objetos de cena cuja função é preencher. Além disso, há as múltiplas entradas e saídas e, coroando a falsificação da cenografia "ambiental", há, no fundo, o clássico recorte que permite vislumbrar a paisagem convencional da zona temperada.

Se os clichês visuais da cenografia e da composição de personagens se referem ao passado remoto, ao tempo em que as personagens ainda viviam na sala de estar de mansões, os outros elementos do espetáculo brincam com a sofisticação das teorias contemporâneas da arte cênica. Nos palcos sérios nada pode sugerir, sequer remotamente, a superfície da vida cotidiana. Em Corra como um Coelho, portanto, os tiros não matam, os mortos não morrem e os discursos das personagens são sempre inconclusivos ou interrompidos pela movimentação incessante a que se obriga uma tendência atual do teatro. A ironia com o perspectivismo da arte moderna faz conviver três personagens que contrariam a mesma história por três ângulos diferentes se soubessem contar uma história. Como nenhuma delas domina sequer a própria narrativa, a barafunda é total. Ocorre o mesmo com a noção de descontinuidade do tempo e do espaço e em um determinado momento do espetáculo - não lembramos exatamente quando - parte do cenário é transportada de um a outro extremo do palco. Instabilidade é isso - o resto é prosa.

É provável que as brincadeiras sejam mais engraçadas para espectadores familiarizados com os rumos e também com os cacoetes da arte contemporânea. Ainda assim, quem conhece o referente poderá apreciar o componente absurdo e por vezes surreal que inspira grande parte do universo cômico.

CORRA COMO UM COELHO

Tusp. Rua Maria Antônia, 294, 3123-5223. 6ª e sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 20. Até 14/11.

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