Brilho próprio

A Revolta da Lantejoula é resultado de profunda pesquisa de linguagem

O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2011 | 03h08

Apostar naquilo que ainda se tem dificuldade em identificar. Esse parece ter sido o admirável e arriscado objetivo da dupla Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira em sua mais recente obra, A Revolta da Lantejoula. Recém estreada na Bienal Sesc de Dança, em Santos, e reapresentada em uma curtíssima temporada de apenas um fim de semana no novo Sesc Bom Retiro, nos fala do que nos falta: a esperança de que será no coletivo que a dança recuperará uma potência que hoje anda enfraquecida.

A obra termina assim, com esse 'recado'. Enfrentando um dos interditos mais severos do Index (não formalmente publicado, mas bastante seguido) da dança contemporânea, A Revolta da Lantejoula propõe um uníssono muito sonoro de corpos que fazem a mesma coreografia ao mesmo tempo, e de frente para o público. Seria um anúncio da volta do velho corpo de baile?

Não parece ser essa a leitura que cabe, pois a corte que gestou o formato do corpo de baile se faz presente, sim, mas de outro modo. Está não somente no balé que se mistura à cultura popular e à dança contemporânea naqueles cinco corpos, como também nos desenhos coreográficos, que aproximam, por exemplo, às guirlandas das danças da corte do passa-passa da dança popular. E nos figurinos de Gustavo Silvestre e Luiz Parisi, que misturam as rendas dos nobres com as texturas da terra do cangaço. E está, sobretudo, nas muitas alegorias a um poder que tudo controla e que vão conduzindo a coreografia.

O chão se torna uma superfície de percussão e passa a fazer parte da trilha sonora. São os corpos e o banco-abrigo-fronteira que o vão transformando em uma partitura.

Continuando o assunto de seu último trabalho, que focou a sustentabilidade da dança, agora demonstram, de forma quase literal, que nem todos conseguem caber no mesmo banco e que, quando nele se ajeitam, alguém sempre acaba sendo derrubado. Todas as cenas se conectam, de alguma forma, com a questão central das atuais políticas públicas que vão produzindo rápidas inclusões à custa de um rodízio nas exclusões.

No lugar das coleções de movimentos que foram estruturando em séries de frases, e que alimentavam a sua composição, surgiram pequenos gestos e novas ênfases. Não é um espetáculo para ser assistido de longe, pois é preciso identificar essa nova força que parece querer dar ao "menos poder ser mais".

Como ocorreu com todas as produções anteriores, essa, a décima desde 2003, quando estrearam no Rumos Dança, provavelmente continuará a ser trabalhada e chegará aos ajustes finos que ainda lhe faltam, e que somente a reapresentação constante permite que aconteçam. Mas o principal já está de pé, e o título indica: não se trata somente de uma revolta, mas também, e principalmente, de uma revolta da lantejoula. Ela volta para a cena com o elenco composto pela dupla e por Beto Madureira, Luiz Anastácio e Patrícia Aockio

Uma lantejoula brilha sozinha, mas é o seu conjunto colorido que se associa com a nossa cultura popular. Cada uma conta, e cada uma faz falta. A força da metáfora de um corpo-lantejoula (brilha sozinha, mas precisa dos outros para expandir esse brilho) constitui o estímulo para que repensemos o papel político da dança nesse cenário, que se desenha a partir das leis que regulam as condições de existência nelas formulados.

Crítica: Helena Katz

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