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Brilho novo na Paulista

A inauguração da sede do IMS vem confirmar a Paulista como polo de cultura e arte

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

19 de setembro de 2017 | 03h00

Num momento em que bem pouca coisa me parece melhorar, é uma alegria e consolo saber que a Avenida Paulista ficou agora ainda mais interessante, com a inauguração, nesta terça-feira, da sede paulistana do Instituto Moreira Salles, a mais recente pérola, ali, numa fieira de focos de cultura, arte e entretenimento.

Com o risco de deixar de fora outros espaços relevantes (cartas à Redação), o cronista contabiliza, além do pioneiro Masp, de 1968, a Casa das Rosas, a Japan House, o Sesc Avenida Paulista, o Itaú Cultural, o Conjunto Nacional – leiam-se a Livraria Cultura, o Teatro Eva Herz e as duas salas de Cinearte – e o Centro Cultural Fiesp, um tanto prejudicado, este, por eventuais papagaiadas como a instalação, na calçada, daquele pato amarelo, o qual bem poderia escafeder-se (nenhuma alusão ao autor da iniciativa) em definitivo. 

Acho que não forço a barra ao acrescentar o cinema Caixa Belas Artes, com nada menos de seis salas, na Consolação, mas a dois passos da Paulista. Incluiria ainda a Reserva Cultural e suas quatro salas, e, por que não?, dois remanescentes dessa instituição que vai hoje se extinguindo em toda parte, o cinema de rua, ambos a apenas duas quadras da Paulista: o Cinesesc, com sua fartura de festivais, e o Espaço Itaú Augusta, desdobrado em cinco salas. Cinéfilos radicais arrolariam ainda os cinco cinemas do Bristol, no Center 3, ainda que não estejam, como os citados, no rés do chão.

Com o risco, também, de seguir convertendo em matéria jornalística o que crônica deveria ser, não vejo como não lembrar que esse saudável movimento não acontece ali por acaso. Tendo sido, por tanto tempo, mais um rude e ruidoso corredor de carros e de ônibus, da praça Oswaldo Cruz à rua da Consolação, a avenida Paulista decididamente mudou de cara, e, sobretudo, de espírito. Até que os templários da moralidade venham mostrar seus caninos – como fizeram, faz uns dias, em Porto Alegre, onde conseguiram fechar uma exposição de arte, sob a alegação de obscenidade –, a mais emblemática avenida paulistana é hoje espaço, entre outras coisas, da diversidade de gênero. 

Servida por três estações do metrô, ela dispõe também, desde a administração Haddad, daquela que talvez seja a melhor ciclovia paulistana, movimentada nos sete dias da semana. Aos domingos, fechada ao tráfego de carros e ônibus, a avenida é para São Paulo a praia que a cidade não tem. 

*

Transplantado de outra praça há quase meio século, este cronista vem desde então acumulando lembranças, boas e nem tanto, da Paulista. 

Entre as más recordações, histórias como a daquele (a)celerado que, na volta da balada, atropelou um ciclista e, em fuga, carregou por quilômetros, preso ao para-brisa, um braço do infeliz, para atirá-lo num córrego, inviabilizando assim qualquer hipótese de reimplante. 

Lembro-me também do incêndio que torrou, 30 anos atrás, dois prédios no Center 3, assim como não esqueço incontáveis agressões a gays nas calçadas da avenida. Em contraponto, a constatação de como se foi encorpando, ano a ano, a parada LGBT, o que, de quebra, ajudou a fazer da Paulista o cenário preferencial das grandes manifestações populares, sejam quais forem as bandeiras. 

Inesquecível ficaria sendo, também, a lembrança do fim de tarde de março de 1990 em que uma notícia percorreu a Paulista e a espinha dos brasileiros em geral: mal tomou posse na presidência, Collor tinha congelado por um ano e meio aquilo que nas poupanças e contas correntes excedesse os 50 mil cruzados novos, algo em torno de 13 salários mínimos. No dia seguinte, o cruzado novo envelheceu subitamente e virou cruzeiro.

Eu trabalhava na sucursal do Jornal do Brasil, no edifício Eluma, em frente à futura estação Trianon-Masp do metrô – e lá de cima pude acompanhar as primeiras reações à brutal e inesperada medida do novo governo, a qual, aliás, deixaria lívidos e gaguejantes os jornalistas de economia que a notícia apanhou de surpresa diante das câmeras, não fossem também eles correntistas e poupadores. 

Os bancos já estavam fechados, e os prédios foram desovando multidões aflitas, em busca daquilo que era ainda um tanto raro, um caixa eletrônico. Com saldo bancário pouco superior ao limite fixado por Collor, pois na véspera esvaziara os bolsos para saldar uma dívida, eu não tinha muito a perder e, nesse estado de espírito, é que desci à rua para presenciar o corre-corre em direção à cabine em frente ao Citibank. 

Minha solidariedade com cada cidadão espoliado pelo Plano Collor não me impediu de saborear o espetáculo de centenas de formigas do mercado de capitais em desespero ao se depararem com o caixa fechado. Vi lágrimas espirrarem, e não foram poucas. 

Três décadas depois, a passagem do tempo me faz ver algo de burlesco nos moços enfarpelados no figurino dos anos 80, no qual eram obrigatórias intermináveis ombreiras (“Tarzan, o Filho do Alfaiate”, diria meu pai), conferindo a quem as usasse o aspecto de uma carta de baralho, como aquelas que, numa passagem de Alice no País da Maravilhas, subitamente desabam sobre a heroína da história, representada, no caso, por um caixa eletrônico. 

Cartas, àquela altura, inteiramente fora do baralho. 

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