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Lúcia Guimarães
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Brilhante e brutal

O gênero biografia se justifica pelas qualidades extraordinárias do biografado. Uma biografia pode, além de narrar uma vida, voltar como um bumerangue para nossas vidas ordinárias com a pergunta: o que este personagem diz sobre nós?

Lúcia Guimarães, Nova York - O Estado de S. Paulo

07 Setembro 2015 | 03h00

O Festival de Cinema de Nova York vai exibir, em outubro, o filme Steve Jobs.

O fundador da Apple, morto aos 56 anos em 2011, já foi objeto de uma biografia autorizada e best-seller de Walter Isaacson. Foi vivido no cinema por Ashton Kutcher, num filme de 2013 que uma crítica nova-iorquina descreveu caridosamente como, no máximo, uma apresentação Power Point.

O novo filme Steve Jobs é um transatlântico, envolve talentos que facilmente bateriam de frente como o lendariamente controlador Jobs. O diretor é Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?), o roteirista é Aaron Sorkin (A Rede Social) e encarnar Jobs gera boatos de Oscar para Michael Fassbender (12 Anos de Escravidão). O filme já obteve, com algumas reservas, a bênção de Steve Wozniak, o cérebro de engenharia e amigo de infância que fundou a Apple com Jobs.

Mas, antes de embarcar na aventura grandiosa, assisti, num pequeno cinema de arte em Manhattan, ao documentário Steve Jobs: The Man in The Machine. O diretor Alex Gibney, admirado por documentários sobre o Wikileaks e a seita Cientologia, se aproximou de Jobs com uma pergunta legítima: o que provocou aquela explosão planetária de luto vista em outubro de 2011, quando Jobs sucumbiu ao câncer de pâncreas?

Embora não passe mais de uma hora acordada sem usar algum produto da Apple, nunca sentiria, pela morte de Steve Jobs, a emoção que senti dois meses depois, quando morreu Václav Havel, o herói checo da Revolução de Veludo.

O documentário de Gibney abre com cenas de público chorando e depositando flores nas portas de vidro das lojas da Apple. O filme costura a trajetória do inovador e empresário brilhante com a do homem que era capaz de mesquinharia e brutalidade.

Furioso por ter engravidado a namorada em 1977, Jobs já era milionário quando negou a paternidade em documentos na justiça, alegando ser estéril. Desmascarado por um teste de DNA, ele concordou em dar uma pensão mensal de US$ 500 à mãe de sua filha Lisa.

Em 1975, Jobs e Wozniak passaram quatro dias e quatro noites acordados criando um novo game para a Atari, o que só foi possível com o conhecimento técnico de Wozniak. Jobs entregou ao amigo de infância $ 350, dizendo que era metade do pagamento pelo trabalho. Recebera, de fato, US$ 7 mil. 

Steve Jobs poderia ter ido para a prisão no final da década passada. Tinha emitido para si mesmo ações da Apple num esquema que não é ilegal, mas tem que ser detalhado em relatórios financeiros para acionistas.

No vídeo do depoimento à SEC, Comissão de Valores Mobiliários americana, Jobs está visivelmente debilitado, mas ainda desafiante. Declara ignorância sobre o esquema e recebe tratamento leniente dos agentes federais.

Joga ao mar seu diretor financeiro, o homem que havia conseguido salvar a Apple da falência em 1997. Ao ser entrevistado sobre a onda de suicídios na empresa chinesa Foxconn, que fabrica produtos da Apple, Jobs comentou que o número de suicídios era baixo, comparado à média na população geral. 

O brilho para tornar a tecnologia um objeto de afeto se estendia a objetificar amigos e colaboradores valiosos. A um engenheiro que foi trabalhar para a Palm, Jobs fez ameaças que sairiam da boca de um don mafioso. 

O documentário questiona a falácia de que os capitalistas do Vale do Silício são figuras de uma contracultura benéfica. Gibney faz um astuto contraponto visual e temático entre a famosa atração de Jobs pelo zen-budismo japonês e sua atração pelo caos.

Conclui que ele tinha o foco de um monge budista, mas não a empatia. A adoração a Steve Jobs provoca mais perguntas sobre nós do que respostas sobre o homem.

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