Briga de estrelas

Hélène Grimaud e Claudio Abbado se desentendem durante gravação e rompem parceria

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2011 | 03h08

Possivelmente a definição mais célebre de maestro seja a do escritor Elias Canetti, em Massa e Poder. Diz ele: "(O maestro) Desperta diferentes vozes para a vida mediante um movimento minúsculo, e cala tudo quanto deseja que permaneça em silêncio. Desfruta, assim, do poder sobre a vida e a morte dessas vozes (...) Cumpre-lhe punir os infratores. As leis lhe são passadas às mãos sob a forma de partitura".

Na semana passada, o mundo assistiu perplexo a uma demonstração clara do poder absoluto do regente. O caso envolveu duas das mais brilhantes superstars do mundo erudito. De um lado do ringue, o maestro italiano Claudio Abbado, de 78 anos, ex-titular do pódio mais disputado do planeta, da Filarmônica de Berlim, comunista histórico hoje incensado justamente por sua adesão a causas populares, educativas e ecológicas. Enfim, democráticas e libertárias de modo geral. De outro, uma das pianistas mais charmosas da cena atual, a bela francesa de olhos azuis e 42 anos Hélène Grimaud, dona de uma carreira estupenda, ardorosa ecologista e defensora dos lobos.

Motivo: uma ridícula picuinha que só conseguiu mostrar ao mundo que mesmo os maestros mais "democráticos" como Abbado não abrem mão jamais de seu poder absoluto no pódio. Em maio passado, pianista e regente gravaram, com a Orquestra Mozart, em Bolonha, os concertos n.º 19 e n.º23 de Mozart. Grimaud, fã de uma gravação do concerto nº 23 com Vladimir Horowitz, resolveu seguir a opção de seu ídolo na cadência. Cadência é um momento em que o solista, num concerto com orquestra, toca sozinho, tendo assim a chance de mostrar toda a sua virtuosidade. Dura entre 20 e 30 compassos, em média. No caso desta, 1 minuto e 20 segundos, distribuídos em 30 compassos.

Amuado, Abbado tentou argumentar com a pianista, mas a gravação seguiu em frente. Ao final das sessões, orquestra já dispensada, o maestro pediu a Hélène que tocasse a cadência que o próprio Mozart compôs para o concerto. Ela foi até seu camarim, deu umas passadas e retornou. Tocou duas vezes a cadência sem saber que estava sendo gravada. Semanas depois, recebeu a gravação para aprovar - e percebeu que Abbado mandara substituir a cadência de Busoni por aquela versão descompromissada. Bateu o pé. "Este é território do solista e não admito negociar", disse. Abbado foi inflexível, considerando que se ela estava demarcando território, então a parceria musical já não funcionava. Cancelou o CD da Deutsche Grammophon e dois concertos badalados que faria com a pianista para promover a gravaçã-o: no Festival de Lucerna e em Londres.

Detalhes esclarecedores: Mozart dava tão pouca importância a elas que sequer compôs cadências para seis dos 27 concertos de piano. Na verdade, ele costumava improvisar a cada execução. Beethoven, aliás, também era emérito improvisador.

Hoje em dia, só a obsessão pelo resgate das intenções originais do compositor é capaz de provocar um incidente absurdo como este. Ou o gosto do exercício do poder pelos maestros. Historicamente, eles sempre levaram a melhor e impuseram sua vontade. Foi assim em 1982, com o violoncelista brasileiro Antonio Meneses, que em sua gravação mais célebre, do concerto duplo de Brahms ao lado de Anne-Sophie Mutter e a Filarmônica de Berlim, tocou a obra a contragosto, mas submeteu-se à vontade de Herbert Von Karajan.

Novo olhar. O único a de fato assumir uma atitude libertária, democrática e igualitária foi Leonard Bernstein. E a questão era muito mais polêmica do que uma simples cadência. O dia era 6 de abril de 1962. No palco, a Filarmônica de Nova York. No programa, o Concerto n.º 1 em Ré Menor de Brahms. Solista: o pianista canadense Glenn Gould. Afinados os instrumentos, entrou apenas o regente. "Vocês ouvirão uma interpretação não-ortodoxa do concerto de Brahms, uma performance completamente diferente, que eu jamais ouvi ou sonhei", disse. Gould optara por tempos muito mais lentos do que os tradicionais. Além disso, quase nunca seguiu as indicações de dinâmica da partitura. "Não posso dizer que concordo com a concepção de Gould. E isso me leva a uma questão : 'O que estou fazendo aqui?' Estou aqui para reger porque Gould é um artista tão sério que eu tenho de levar a sério tudo que ele conceba de boa fé. E sua concepção é suficientemente interessante para que eu queira ouvi-la."

A parte final da fala é ainda mais interessante porque dá uma lição avant la lettre a Claudio Abbado e a todos os tiranozinhos da batuta ainda muito comuns no mundo inteiro: "Apenas uma vez antes em minha vida me submeti a um solista que pregava um conceito incompatível com minhas convicções, e foi justamente a última vez que acompanhei Gould. Mas desta vez as discrepâncias entre nossas concepções são tão grandes que eu precisava dizer algo. Então, repetindo a pergunta, por que estou aqui regendo? Porque me fascina ter a chance de presenciar um novo olhar sobre uma obra muito executada".

Lenny amava a música e todos os que eram capazes de lhe fazer ver de um movo novo uma obra já conhecida. Por causa de meia dúzia de compassos, Abbado rompeu uma parceria muito bem-sucedida com Hélène Grimaud. Perdeu o regente, ganhou a pianista, que regeu do piano a gravação destes mesmos concertos para a Deutsche Grammophon, em registro ao vivo com a Orquestra de Câmara da Orquestra da Rádio da Bavária. É a primeira gravação ao vivo de Grimaud. O CD será lançado hoje, como originalmente programado.

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