Brière, engenho e arte

Para o músico, tocar bem o seu instrumento é primeiro mandamento. O segundo é a compreensão ampla das obras que executa. Isto é, ir além das notas técnicas, informar-se sobre como aquela música nasceu, em que realidade social, econômica e política; e descortinar a cabeça do compositor, lendo tudo a seu respeito. Desse modo, ele fica à frente dos demais. O último toque é aplicar engenho e arte na escolha de repertório nos recitais, concertos e gravações.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2011 | 00h00

Foi o que fez o jovem pianista canadense Jimmy Brière em seu primeiro CD para o selo Analekta. O conceito do CD nos leva a querer ouvi-lo inteiro. Brière interpreta peças de três ganhadores do Oscar de melhor trilha sonora, num arco amplo, que começa com uma sonata do austríaco Erich Wolfgang Korngold (1897- 1957) e termina com Etude Fantasy do contemporâneo John Corigliano, hoje com 72 anos. Faz, ainda, um pit stop delicioso por um punhado de prelúdios assinados por Nino Rota (1911-1979), a alma gêmea musical de Visconti, Fellini e Coppola.

De Korngold, é apresentada a Sonata n.º 2, que recebeu elogios rasgados de Arthur Schnabel. Menino prodígio ungido por Mahler, em Hollywood, Korngold conquistou quatro Oscars de trilha sonora original entre 1936 e 1940, por As Aventuras de Robin Hood, Adversidade, The Sea Hawk e Capitão Blood. Várias vezes comparado a Mozart, o maior dos meninos prodígios, compôs essa sonata em 1910, aos 13 anos.

Os dois grupos de peças seguintes adotam formas livres. Nino Rota fica com o espírito dos prelúdios e Corigliano parte dos estudos de Chopin. O ponto alto do CD talvez esteja nos 15 prelúdios de Nino Rota, que levou o Oscar pela trilha do segundo Poderoso Chefão, em 1975. Mas o piano sempre foi seu confidente preferencial. Nesses prelúdios, de 1964, ele tece um caleidoscópio sonoro.

O norte-americano John Corigliano levou o Oscar pela trilha de O Violino Vermelho, 12 anos atrás. E, apesar da carreira consistente como compositor, só ficou conhecido mundialmente porque levou a estatueta.

Seu Etude Fantasy é de 1976, quando ainda militava no gueto da música contemporânea. É curioso que Corigliano já fosse tão convencional nos anos 70, a ponto de suas peças soarem menos atrevidas que os prelúdios vinhetas de Rota. Melhor, portanto, chamá-los de exercícios de estilos ou pastiches pós-modernos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.