Breves versões de Tennessee Williams

No centenário do autor americano, grupo Tapa mostra suas peças curtas

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2011 | 00h00

Um ensaio para o que viria depois. Em Alguns Blues do Tennessee, o grupo Tapa mostra uma seleta de três textos curtos de Tennessee Williams. Criadas no começo dos anos 1930, as narrativas surgem quando o autor ainda exercitava seu estilo. Como se prenunciassem os temas e as personagens que o dramaturgo conceberia mais tarde.

"Ali, ele estava ensaiando seus instrumentos", observa o diretor Eduardo Tolentino, que conduz a encenação ao lado de Brian Penido Ross. Ao longo de sua carreira, Tennessee escreveria outras dezenas de peças curtas. Conforme atingiu a maturidade, esses textos também se tornaram mais elaborados. O foco do Tapa sobre essa fase "verde" de sua produção, porém, tem um sentido. "Nesses textos você começa a entender a estrutura do autor, vê algumas experimentações e estudos de algumas personagens que apareceriam nas obras maiores", diz Tolentino.

É assim que a breve peça Verão no Lago (1939) já insinua um esboço da matriarca Amanda Wingfield que Tennessee criaria cinco mais tarde em À Margem da Vida, seu primeiro grande sucesso. Da mesma maneira, A Dama da Loção Antipiolho (1942) deixa entrever os traços de Blanche DuBois, a frágil e perturbada protagonista de Um Bonde Chamado Desejo.

Não é a primeira vez que o Tapa demonstra predileção por textos "menores" ou menos conhecidos de grandes autores. Foi assim com Viúva, Porém Honesta, de Nelson Rodrigues. E também, mais recentemente, com Amargo Siciliano, quando o grupo se debruçou sobre duas peças curtas e um conto de Luigi Pirandello.

Agora, a montagem desses três textos breves de Tennessee cumpre a função de revelar um lado menos conhecido do escritor norte-americano. Mas não só. O expediente, lembra Tolentino, serve inclusive para evitar armadilhas na montagem futura de obras mais extensas. "Esses textos têm essa cara de experiência", lembra o diretor do Tapa. "Com eles, a gente aprende a não escorregar no melodrama nem na subliteratura."

Chamar o espetáculo de Blues do Tennessee é uma maneira de localizar um pouco a voz que norteia esse conjunto de peças. Aqui, as raízes sulistas do teatrólogo aparecem ressaltadas. Outro sentido do título é evidenciar certa semelhança com a própria estrutura do Blues. Assim como o ritmo se caracteriza pela repetição de um motivo musical, esses textos também se pautam pelo desdobramento de um único tema.

Novas traduções. Inserido na esteira das comemorações do centenário de Tennessee Williams (1911-1983), o Tapa também traz a público novas traduções de suas peças.

Os textos começaram a ser traduzidos dentro de sala de aula, nos cursos de formação que o grupo oferece. Logo, porém, as traduções ganharam vulto. Mereceram supervisão da professora Maria Sílvia Betti e devem ser publicadas no segundo semestre pelo selo É Realizações. A editora promete volumes com 26 peças curtas, além de seis textos longos.

QUEM É

TENNESSEE WILLIAMS

ESCRITOR E DRAMATURGO NORTE-AMERICANO

Sob esse pseudônimo e influenciado nos seus dramas familiares, Thomas Lanier Williams (1911-1983) criou obras fundamentais como Um Bonde Chamado Desejo e Gata em Teto de Zinco Quente, ganhadoras do Pulitzer de 1948 e 1955, respectivamente.

ALGUNS BLUES DO TENNESSEE

Viga Espaço Cênico. Rua Capote Valente, 1.323, Pinheiros, telefone 3801-1843. 3ª a sáb., 21h30; dom., 20 h. R$ 30. Até 5/6.

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