Breves e plenos relatos

Em Tenho Um Cavalo Alfaraz, Ivone C. Benedetti consolida sua ficção de tintas genuínas

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2011 | 00h00

Ivone C. Benedetti é uma das melhores e insuspeitadas escritoras da recente literatura brasileira. Apesar de ter atuado com esmero no generoso e invisível front da tradução literária de qualidade por décadas, em 2009 ela brindou o público com uma grata e anacrônica surpresa, o romance Immaculada. Grata, porque é um romance escrito para ser lido, com uma história bem urdida e com personagens claros e ricos, e é algo estranho que não tenha alcançado um número imenso de leitores. E anacrônica surpresa porque o romance vem de mãos dadas com duas energias hoje sublimadas: por um lado, o gosto pela prosa bem acabada e cinzelada, de encadeamento fluente, que passa uma impressão de facilidade que advoga contra o livro em um panorama tão apaixonado pela dificuldade; de outro, uma clara ambição política, um desejo de tornar a trama individual exemplar de uma macronarrativa nacional, um uso da ficção como comentário histórico que soa antiquado em tempos de distopia completa como o atual.

Ler o romance de Benedetti é como debruçar sobre um bom Marcos Rey ou Marques Rebelo - uma visita ao passado. Isso não informa negativamente o talento narrativo de Benedetti; apenas ilustra o modo autoritário como o panorama cultural atual é construído. A crítica literária é prisioneira tanto da evolução quanto da cronologia. Longe de um acúmulo de diferentes temporalidades, o cenário da literatura é sempre um universo progressivo, no qual alguns escritores dão o próximo passo e outros ficam presos no que representa o retrocesso. A questão não é qualidade; é mais de preconceito.

Por tudo isso, soa "insolente" a publicação de Tenho Um Cavalo Alfaraz, volume de contos de Ivone. Toda a operação que ela fez no gênero romance efetua nesse outro gênero: está no livro o esforço de construir um mundo autocentrado para cada um dos relatos. E não é por serem breves que Benedetti abandona a artimanha de erigir um arco dramático, uma jornada emocional, para todas suas personagens. Seja no fascínio do início do curso universitário, na dor fria da vida de preso político, na lógica misteriosa da crença religiosa, na força sensual da música ou no espanto entediado diante da morte, em cada um dos textos Ivone parece revisitar, com pleno domínio técnico, contos como eram escritos antes da influência do argentino Julio Cortázar, do americano Donald Barthelme e de outros mestres desse peso.

Os livros de Benedetti não são perfeitos, nem redentores - há em Immaculada certa redundância de informações típicas em primeiros romances, e em seus relatos um foco tão dedicado que acelera, sem necessidade, a resolução de alguns contos. Mas os livros são vivos e sinceros, honestos - e por isso merecem uma leitura atenta.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

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