BREVE ROMANCE DE SONHO

Grupo Tapa envolve Senhorita Júlia, clássico naturalista de Strindberg, em aura onírica

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2013 | 02h13

Quando escreveu Senhorita Júlia, a intenção de August Strindberg era fincar, de vez, seus pés no naturalismo. Era época em que o movimento ganhava força com os livros de Émile Zola, na França. Também chegava com ímpeto aos palcos pelas mãos de André Antoine, criador do Teatro Livre de Paris. A intenção era fazer da arte um meio de representar a vida com a maior exatidão possível. Reproduzi-la em todos os seus detalhes. Sem escamotear seus aspectos mais desagradáveis.

O dramaturgo sueco tinha todas essas ideias no horizonte. Mas o resultado alcançado, argumenta o diretor Eduardo Tolentino, está longe de seguir à risca todos os preceitos do gênero. "Ele até começa a peça como se fosse um texto completamente naturalista. Desloca a ação teatral da sala burguesa para a cozinha. Tenta trazer detalhes desse universo, que não é mais unicamente o da burguesia." O intrigante é que Strindberg não consegue manter-se nessa toada por toda a obra. Convoca à trama elementos que escapam do seu ímpeto de mimetizar a realidade.

Na montagem que o grupo Tapa estreia hoje, a direção de Tolentino mostra o texto à luz dessas constatações. Usa a encenação para aproximar Senhorita Júlia (1888) do aspecto onírico das últimas criações de Strindberg - caso de Rumo a Damasco (1898) e O Sonho (1902).

Ainda que situe o embate entre os personagens Júlia e Jean em um lugar que lembra uma cozinha - conforme as rubricas do texto -, a atual versão não tenta reconstruir à perfeição esse ambiente. Também mantém a trama em um universo rural, como no original, mas sem um tempo definido, fora das noções de passado e contemporaneidade. "Como se estivessem em um espaço abstrato, em um tempo abstrato", observa o encenador.

Grosso modo, o procedimento se assemelha àquele que a companhia utilizou em outra recente montagem de um título do autor. Em Credores, ainda em cartaz, a ação era transporta para um cenário indeterminado e claustrofóbico. Ficava ainda mais evidentes o impacto de Strindberg sobre o pensamento de autores como Jean Paul Sartre e Eugene O'Neill.

Senhorita Júlia tornou-se a mais conhecida e encenada das peças de Strindberg. Talvez por examinar as mais controversas questões de seu tempo. Flagrava conflitos - de classe e de gênero - que ainda hoje nos afligem.

Júlia (interpretada por Anna Cecília Junqueira) é a filha de um fazendeiro que se envolve com Jean (Augusto Zacchi), empregado da casa. Controversa, a relação a levará à ruína. Ao deixar sua posição de proprietária, o seu lugar como mulher também se fragiliza.

A perda da "honra" - leia-se virgindade feminina - pode soar datada. Essa, porém, é apenas a mais rasa das maneiras de enxergar o conflito delineado pelo escritor nórdico. "Ela não é apenas uma figura frágil. Envolve-o em um jogo perverso. Está interessada em chegar a uma situação limite", aponta Tolentino.

A distância social e econômica que existe entre os protagonistas não é um impeditivo para sua união apenas por aspectos externos a eles. Não se trata só do preconceito alheio. Mas das relações de poder e dominação que se estabelecem dentro da relação conjugal. "A disputa entre desejo e poder é um aspecto constante na criação de Strindberg. E ele não falava disso de fora, mas como alguém que viveu isso em casa", pontua o diretor. "Era filho de uma criada de quarto com um aristocrata. Conhecia o preconceito por dentro."

Os personagens que Strindberg convoca denotam a singularidade do seu olhar. Ele não estava distante da Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen. Apenas nove anos separam as peças que tratam, ambas, da mulher que começava a se emancipar da dominação patriarcal. A problemática feminina une os dois autores. A questão de classe os separa. Embora não apareça, o patrão surge como sombra constante. Dado marcante também é a presença da criada em cena.

A propalada misoginia do escritor permanece um eixo para quem se detém sobre suas criações. É inútil negá-la. Mas conveniente dar-lhe moldura mais complexa. Strindberg era um homem em choque com as mudanças de seu tempo. Protagonista de três casamentos desfeitos. Estupefacto diante da "nova mulher". Soa, hoje, como uma problemática mais do que resolvida. Será mesmo? "Ainda há muita gente perdida, lidando com ideias mal digeridas de liberdade e de feminismo", considera Tolentino.

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