Bressane discute sua trajetória em livro

É reconfortante ler um livro como Cinemancia (Imago, 100 páginas, 13 reais), de Julio Bressane. Sem mitificar o cineasta (Bressane não tem admiradores; tem fiéis) sempre é bom saber que há, nessa atividade, quem reflita antes de agir. Em geral, cinema é feito de maneira meio intuitiva. Esse voluntarismo estético pode dar certo, ou não e nem é esse o ponto. Bressane é uma avis rara porque acompanha seu trabalho de um pensamento racional a respeito. Pensamento muito sofisticado, aliás.É o que se verifica logo no ensaio de abertura Fotodrama: Grão de Luz, sobre São Jerônimo, tema de filme recente do autor. O que se lê nesse texto? Um mergulho profundo de Bressane no assunto que lhe interessa, a saga da tradução, o deserto como local de depuração mental e espiritual, a ascese mística. De longe, o mais profundo dos ensaios da coletânea, este sobre Jerônimo revela a compreensão do cineasta a respeito daquilo que filmará. Não é a única referência de Bressane aos próprios filmes. Outro capítulo é dedicado a Brás Cubas, sua adaptação da obra-prima de Machado de Assis (há outra, de André Klotzel, ainda inédita). No texto, Bressane vai ao ponto e discute aquilo que sempre causa polêmica nesse tipo de obra: como transpor um texto literário (sobretudo quando se trata de um clássico) para outro meio, o cinema? A operação, uma tradução intersemiótica, conforme o jargão, faz-se, segundo o autor, em termos de luz, movimento, angulação e montagem. Procedimentos cinematográficos, portanto. Quem viu o Brás Cubas de Bressane sabe com que criatividade ele conseguiu transpor para a tela as antecipações gráficas do texto de Machado. Para isso, foi preciso desconstruir o texto, ou para usar os termos do autor, fazer uma "desleitura" do original.A palavra, portanto, é "tradução", e ela passa de um texto a outro. Migra de Jerônimo para Machado e chega a Vidas Secas, a transposição que Nelson Pereira dos Santos fez para o romance de Graciliano Ramos. Há outro significante que reaparece e é colhido por Bressane: "deserto". O mito do deserto como "uma das criações duradouras da antiguidade". O deserto como contramundo, "o lugar onde poderia crescer uma vida alternativa lugar ainda preservado do calcar das pisadas humanas." Deserto que, no caso brasileiro, é também signo do déficit social, como se vê em Vidas Secas.Cinemancia traz também um texto sobre o cineasta Robert Bresson e outro sobre Jorge Luis Borges, de quem Bressane tentou - em vão - comprar os direitos de um dos capítulos de A História Universal da Infâmia. Interessava a Bressane o texto sobre o notório e romântico bandido Billy the Kid, mas Borges recusou o negócio - dizendo que não poderia vender um mito.

Agencia Estado,

03 de fevereiro de 2001 | 17h10

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.