Brecht tecnológico em curta temporada

Animações infográficas, projeções em alta definição: a tecnologia que tão bem serve ao entretenimento, em shows musicais e espetáculos da Broadway, pode servir também ao teatro que denuncia a exploração do homem pelo homem. Pelo menos essa é a aposta do diretor espanhol Franjo Pareja, que traz ao Brasil sua montagem de Os Sete Pecados Capitais, ópera criada em parceria por Bertolt Brecht e Kurt Weill. Para criar sua concepção particular da ópera, Pareja uniu-se à pintora expressionista espanhola Victoria Contreras, responsável pelos desenhos dos grandes painéis do cenário. Os Sete Pecados Capitais estréia hoje para uma temporada relâmpago, apenas três apresentações, no Teatro Cultura Artística. Uma superprodução, com 60 pessoas entre músicos, atores e equipe técnica. A ópera será cantada em alemão. Mas Pareja garante que o público brasileiro não terá nenhuma dificuldade em entender o que se passa em cena. "Como fiz na Espanha, vou utilizar painéis, semelhantes aos dos cinema mudo, com um breve texto - em português - antes de cada cena", avisa. "Os espanhóis também não dominam o alemão e, no entanto, o espetáculo conseguiu grande empatia com o público, desde sua estréia, em junho, no Centro de Arte Contemporânea de Sevilha", garante. O libreto de Os Sete Pecados Capitais conta a história de duas irmãs, Anna I e Anna II, que saem de sua cidade natal, Louisiana, em busca de trabalho. O sonho de ambas é ganhar dinheiro para construírem uma casa em sua cidade natal. Como indica o título, elas percorrem sete cidades e, em cada uma delas, cometem um dos sete pecados capitais. "Meu estilo de encenação é mais plástico, gosto de criar imagens", afirma Pareja. A ópera tem uma estrutura de esquetes, que ele explora cenicamente através de cores. "Para cada pecado predomina um cor. No momento da ira, por exemplo, todo o palco pinta-se de verde, diferentes tonalidades de verde." A obra original tinha 38 minutos e, por isso, Pareja criou um prólogo, no qual Kurt Weill se transforma em personagem. Weill sonha estar num cabaré de Berlim da década de 30. "Nesse prólogo, entram canções conhecidas como Balada de Mackie Navaja e Surabaya Johnny." A idéia da montagem nasceu quase por acaso. "Todos os meus grandes projetos artísticos começaram num café", diz Pareja. E foi assim, numa conversa informal com a pintora expressionista espanhola Victoria Contreras, que ambos decidiram pela parceria artística. Victoria criu os grandes painéis do espetáculo, cujos desenhos são animados infograficamente. "Não são meras ilustrações. As imagens têm função dramática no espetáculo, ajudam a contar a história", afirma Pareja. Obviamente Brecht não tinha a intenção de realizar uma pregação religiosa, mas denunciar a exploração. O primeiro pecado retratado é o da preguiça, porém de forma diferente da esperada. As duas irmãs armam uma estratégia, um pequeno golpe, para arrancar dinheiro de incautos num banco de praça. Depois de muitos golpes, cansada, Anna II acaba por adormecer ao relento. Entra em cena a família acusando-a de indolente e preguiçosa. Também é bastante particular a forma com Brecht retrata a gula. "Anna não deve engordar um só grama, sob pena de perder um contrato de bailarina", canta a família. "Para mim, trata-se de uma história simples, duas mulheres exploradas por sua família", diz Pareja que fez questão de retratar essa família de forma ridícula. "Não foi fácil convencer cantores de ópera a usarem sacos de batata como figurinos, mas é assim que eles estão vestidos, com tecidos de estopa. Procurei torná-los patéticos em sua ambição." Os Sete Pecados Capitais. De Kurt Weill e Bertolt Brecht. Direção Franjo Parejo. Duração: 1h40. De segunda a quarta, às 21 horas. De R$ 80,00 a R$ 120,00. Teatro Cultura Artística. Rua Nestor Pestana, 196, tel: 258-3616

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