Brecht no cinema

Caixa com três DVDs que será colocada amanhã no mercado traz filmes dirigidos ou roteirizados pelo maior dramaturgo alemão do século 20 e um documentário premiado sobre a sua obra

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2010 | 00h00

A relação do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) com o cinema vai além das inúmeras adaptações que foram feitas de sua Ópera dos Três Vinténs desde que Pabst dirigiu sua primeira versão, em 1931, e da influência que exerceu sobre cineastas como Rainer Werner Fassbinder e o dinamarquês Lars von Trier. Para quem ainda não sabe como essa relação começou, a Versátil Home Vídeo coloca amanhã no mercado uma caixa com os primeiros trabalhos de Brecht no cinema, desde sua estreia, em 1923, dirigindo o ator Karl Valentin em Os Mistérios de Uma Barbearia (Mysterien Eines Frisiersalons, 1923), ao clássico dirigido pelo alemão Fritz Lang no exílio americano, Os Carrascos Também Morrem (Hangmen Also Die, 1943).

A caixa de Brecht traz ainda um premiado documentário com imagens raras e entrevistas do dramaturgo. Dirigido por Joachim Lang há quatro anos, A Vida de Bertolt Brecht (Brecht - Die Kunst zu Leben) é uma introdução valiosa ao pensamento de um homem que representou para teatro o que Einstein foi para ciência e Chaplin para o cinema. Aliás, é a figura do criador de Carlitos que inspirou Brecht a filmar Os Mistérios de Uma Barbearia com o comediante Karl Valentin, que considerava a versão alemã de Chaplin. Valentin, como Brecht, era politizado. Comandava um cabaré político quando os dois se conheceram em Munique por volta de1920. A identificação foi mútua e imediata. Anos mais tarde, ele lembraria de Valentin como uma influência tão grande em sua vida como a de Wedekind e Büchner.

Valentin também foi uma referência fundamental para Brecht criar seu teatro épico. Em Os Mistérios de Uma Barbearia, que Brecht realizou em parceria com o cineasta Erich Engel, o ator cômico abusa de seu talento anárquico para transformar seu salão de barbeiro numa sala de tortura dos clientes, que saem de lá carecas ou muito diferentes do que imaginavam antes de entregar os cabelos e as barbas ao maluco. Brecht passaria os oito anos seguintes dedicados exclusivamente ao teatro, voltando à direção em 1931 para adaptar sua peça Um Homem É Um Homem (Mann ist Mann), que havia estreado em Darmstadt cinco anos antes. Desta vez, a conversa foi séria. Não havia mais um barbeiro aloprado, mas um civil transformado no perfeito soldado após uma lavagem cerebral. A Versátil está em negociações para incluir o curta numa segunda caixa com filmes baseados na obra de Brecht.

No mesmo ano, 1931, um dos maiores diretores da história do cinema, George Wilhelm Pabst (de A Caixa de Pandora) investiu pesado na adaptação de A Ópera dos Três Vinténs (Die Drei Groschen-Opera) para o cinema. A versão incluída na caixa é a restaurada. Rigorosamente, é uma adaptação do húngaro Béla Balázs, mas quem aparece como autor é Brecht - o que rendeu uma ação judicial, em que o dramaturgo admitiu não ter lido o roteiro durante a produção. Balász foi uma figura central do primeiro período do cinema alemão. Praticamente definiu sua linguagem. Eisenstein e Pudovkin o tinham em alta consideração, mas seus amigos comunistas lhe viraram as costas quando Balázs criticou o expurgo stalinista. De qualquer modo, na época de A Ópera dos Três Vinténs ele estava antenado com a cartilha ideológica de Brecht, que usou a forma popular do musical para criticar o sistema capitalista.

Nessa "ópera" com música de Kurt Weill, o anti-herói criminoso de Brecht é Macheath (ou Mack the Knife, como ficou popular na cultura anglo-americana). Ele casa secretamente com Polly sem saber que é a filha do homem que controla a mendicância em Londres. Este exige que Macheath seja enforcado. Levado à prisão, ele escapa misteriosamente - bem, nem tanto, já que o delegado corrupto era seu amigo. A parábola de Brecht é clara. No fim, a rainha da Inglaterra concede o perdão ao marginal e todos se ajeitam. A lógica do dramaturgo é implacável: Quem é o verdadeiro ladrão, aquele que rouba ou funda um banco?

A resposta seria dada num filme realizado no ano seguinte, um marco do cinema político alemão, Kuhle Wampe (Kuhle Wampe Oder Wem Gehört Die Welt?, 1932). O subtítulo original, A Quem Pertence o Mundo? é uma pergunta que naturalmente estava na cabeça dos alemães um ano antes de Hitler chegar ao poder. É a história de uma família operária na maior crise enfrentada pela Alemanha. Foi o primeiro filme a apresentar de forma explícita as propostas do Partido Comunista Alemão. Dirigido por Slatan Dudow, que desde 1929 ajudava Brecht a desenvolver sua teoria do teatro didático, Kuhle Wampe mostra como 5,5 milhões de desempregados sobreviviam, vasculhando latas de lixo, mendigando ou vendendo o corpo nas ruas - cenário e drama perfeitos para a emergência do nazismo, que prometia resgatar a "dignidade" do povo alemão.

Kuhle Wampe é um filme cru. Ao decreto governamental que corta a ajuda financeira às famílias carentes em 1930 segue-se o suicídio de um jovem, comentado de forma sarcástica por uma passante: "Um desempregado a menos." O diretor Dudow realizou antes um documentário sobre o tema, também na caixa, Como Vive o Trabalhador Berlinense (Zeitprobleme: Wie Der Arbeiter wohnt, 1930), sobre as precárias condições de vida dos operários. Além dos filmes, a caixa Brecht no Cinema traz um disco com depoimentos de três professores da USP especializados na obra de Brecht: Iná Camargo Costa, Marcos Soares e Maria Sílvia Betti.

QUEM É

BERTOLT BRECHT

DRAMATURGO

Nascido em 1898 e morto em 1956, foi a figura mais influente do teatro alemão. Marxista, combinou teoria e prática para explorar um teatro político e refinar a forma épica em peças como A Vida de Galileu.

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