Brassaï associa fotografia e cinema em exposição

Mostra francesa leva o sugestivo título de 'Pelo Amor de Paris'

Luiz Carlos Merten, Paris - O Estado de S. Paulo

24 de fevereiro de 2014 | 18h56

Pode não ser um grande enigma da história da fotografia, mas o público que fica pelo menos uma hora na fila antes de conseguir entrar no Hotel de Ville de Paris – a Prefeitura local – para ver a exposição de Brassaï invariavelmente estaciona diante de uma série de fotos que ele fez em 1945. Mostram crianças que espiam pelas frestas de uma cerca. Elas estão de costas para a objetiva. Não têm uma cara, e o observador também não sabe o que chama a atenção dos pequenos. 

Passaram-se quase 70 anos. Quantas daquelas crianças estarão vivas? Talvez a pergunta passe pela mente do observador por um instante. A fotografia, com certeza, foi uma das invenções do homem para vencer o tempo. E quando ela adquiriu movimento e se tornou cinema, a vitória (contra o tempo) pareceu definitiva. Mas o cinema, se eterniza as coisas e as pessoas pela imagem em movimento, também vira signo de morte, na medida em que tudo ali é congelado, exatamente igual, para sempre. 

Não há como não associar fotografia e cinema na grande exposição de Brassaï porque ela inclui o filme que ele realizou. Depois de investigar, com suas lentes, o comportamento humano, o grande fotógrafo foi investigar o comportamento dos animais. E fez Et Tant qu’il y Aura de Bêtes, um curta de 21 minutos premiado em Cannes, em meados dos anos 1950.

O viajante que chega a Paris por estes dias é agraciado com exposições que, por si sós, valeriam a ida à França. Os impressionistas das coleções privadas foram para o Quai d’Orsay e a Cité du Cinéma abriga um megaevento (nem é mais uma exposição), sobre Star Wars. Tudo o que você queria saber sobre a série mítica de George Lucas, que JJ Abrams, o grande, se prepara para reinventar. Fotos, vídeos, making of, objetos. Todos aqueles robôs revisitados, dissecados. São belíssimas exposições, mas existem as duas dedicadas a grandes fotógrafos. Henri Cartier-Bresson está no Centro Georges Pompidou, o Beaubourg. Brassaï, no Hotel de Ville.

Cartier-Bresson, chamado de fotógrafo do século 20, fotografou a grande história e esteve presente em acontecimentos que mudaram a história do mundo. Brassaï, circunstancialmente, clicou grandes personagens. Frequentou o ateliê de Pablo Picasso e foi amigo do grande pintor – uma de suas fotos mostra o ator Jean Marais, companheiro do mítico Jean Cocteau, posando para uma versão picassiana das Majas. Surpreendeu o velho Joseph Kennedy numa noitada no Folies Bergère. Mas, na maior parte de suas fotos em admirável preto e branco – nenhuma colorida –, Brassaï substitui os grandes pelos pequenos acontecimentos. A própria série das crianças chama-se L’Événement. Qual é o evento nessas crianças que espiam não se sabe o quê?

Brassaï foi o pseudônimo adotado por Gyula Halász (9 de setembro de 1899/8 de julho de 1984). Ele nasceu em Brasso, na Transilvânia, uma parte da atual Romênia que, na época, integrava o Império Austro-húngaro, depois desmembrado. O paio, professor de francês na universidade, teve direito a um ano sabático em Paris e levou a família. Gyula depois regressou e nunca mais abandonou a França, nem Paris. A exposição leva o sugestivo título de Pelo Amor de Paris. Ninguém, como ele, fotografou os recantos que se tornaram icônicos da cidade pelo simples fato de terem sido clicados por ele. Muitos são flagrantes de uma Paris fantasmagórica, deserta. A escadaria de Montmartre, a vista da cidade do topo de Notre Dame, entre as gárgulas que ornamentam a fachada da catedral. Brassaï adorava essas paisagens filtradas pela luz artificial e pela bruma.

Várias das imagens que ele captou autorizam similaridades com a Paris de Marcel Proust, e sua busca do tempo perdido. As fotos de Brassaï ganham companhia da de fotógrafos pioneiros da Belle Époque – ele próprio só começou a fotografar seriamente em 1929. Tinha consciência do que fazia e, se não tivesse, os amigos lhe lembrariam. O escritor Henry Miller dizia que ele tinha uma câmera no lugar do olho. Brassaï amava personagens anônimas – o acendedor dos lampiões de gás, as prostitutas e seus gigolôs. Era atraído pelo lado sórdido da noite, que conseguia tornar singularmente belo. 

As prostitutas mais decaídas adquirem nobreza em suas fotos. E em Les Mauvais Garçons, ele flagra os bad boys meio escondidos nas sombras. Naquela outra escadaria, o gato branco que olha para a câmera, como consciente de estar sendo imortalizado por um grande artista. No ateliê de Picasso, Brassaï fotografou a mão do pintor. E quando Picasso escreveu uma peça, ele foi aos bastidores registrar, para todo o sempre, a imagem do pintor cubista com seus amigos Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Os casais o emocionavam. A foto emblemática no cartaz da exposição é de um casal que ele clicou no baile do Quatre Saisons, na Rue de Lappes, em 1932. Com o tempo, as fotos não lhe bastavam. Fez cinema e também tapeçarias, que resultavam de experimentos a que submetia os originais em nitrato de suas fotos. Aplicava prata, criava volumes, transformava sua fotografia numa outra mídia. A exposição de Brassaï segue no Hotel de Ville, em Paris, até 8 de março, com entrada gratuita.

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