BRASÍLIA SOB O OLHAR CRÍTICO

Obra de Niemeyer é discutida por colegas, autores, historiadores e antropólogos

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h11

Lançado na sexta-feira, o livro Brasília - Antologia Crítica, que tem como organizadores os arquitetos Alberto Xavier e Julio Katinsky, chega ao mercado pouco tempo depois da morte de Oscar Niemeyer (1907-2012). Nele, a obra maior do arquiteto carioca é discutida por colegas igualmente falecidos (Joaquim Guedes, Lina Bo Bardi), historiadores (Arnold Toynbee, Kenneth Frampton), escritores (André Malraux, Alberto Moravia, Clarice Lispector, Umberto Eco), filósofos (Max Bense, Otília Arantes), sociólogos (Gilberto Freyre), antropólogos (James Holston) e críticos de arte (Mário Pedrosa). Livro marcado pelo desencontro de opiniões sobre o projeto urbanístico de Lúcio Costa (1902-1998) e a arquitetura de Niemeyer, Brasília, primeira antologia crítica sobre a capital, acompanha desde as manifestações iniciais sobre o projeto de implantação da cidade, ainda nos anos 1950, até recentes análises sobre seu destino.

Interessante notar como as críticas do primeiro texto da antologia, assinado em 1957 pelo ex-prefeito de São Paulo Prestes Maia (1896-1965), encontram ressonância no ensaio que fecha a edição, do arquiteto e historiador inglês Kenneth Frampton, publicado originalmente há dois anos num livro sobre a fotografia de Marcel Gautherot, que registrou a construção de Brasília. Prestes Maia, não exatamente um entusiasta da transferência da capital, escreveu há 55 anos que essa mudança não iria "corrigir os nossos males" nem "moralizar a política". Era tão somente uma "obra de engenharia" - sem o caráter sagrado da concretização dos ideais coletivos que marcaram as antigas civilizações.

Kenneth Frampton, em seu ensaio, diz, curiosamente, que Lúcio Costa tomou a herança cultural do mundo antigo como marco zero de seu projeto urbanístico, citando como seus modelos a grandiosidade axial do Egito e os paradigmas cosmogônicos do Império Romano, tudo isso sob o signo da modernidade de Le Corbusier. Sua conclusão converge para os problemas levantados por Prestes Maia: apesar da "imagem promissora de uma nova civilização", Brasília permanece, segundo Frampton, "o projeto moderno inacabado 'par excellence', suspensa entre a pós-moderna economia do 'laissez-faire' de suas cidades satélites e a visão modernista de um modo de vida inteiramente novo ".

A monumentalidade de Brasília provocou polêmica desde o concurso para seu plano piloto, em 1957, e chocou o escritor italiano Alberto Moravia. Ele saiu de sua visita à cidade, em 1960, com a impressão de que seu gigantismo arquitetônico aniquilava o homem, ao evocar monumentos de antigas autocracias. Lina Bo Bardi, em 1964, respondendo indiretamente a Moravia - e mais diretamente aos arquitetos italianos que criticavam o projeto da capital -, disse que Brasília representava um "impulso de libertação" do Brasil, condenando a crítica formalista.

Lúcio Costa, ao explicar os eixos, perspectivas e a "ordonnance" de Brasília, assume, num texto do livro, que a capital era de "filiação intelectual francesa" e evocava a "lembrança amorosa" de Paris, apontando ainda como referência uma série de fotos feitas por um alemão na China do começo do século passado, que mostravam suas muralhas e arquitetura secular. Na página seguinte, o próprio Niemeyer, num artigo para a revista Módulo, de 1958, revela que o "espírito da monumentalidade e nobreza" deveriam marcar o Palácio da Alvorada e que a sobriedade das grandes praças europeias eram, de fato, seus modelos para a capital. O historiador Toynbee, num ensaio de 1967, classifica o palácio presidencial de "a joia de Niemeyer", um "novo ponto de partida para a arquitetura", segundo ele tão importante como foi o Apadana dos persas, o grande auditório de Persépolis sustentado por colunas.

Clarice Lispector, em crônica para o Jornal do Brasil, em 1970, não se mostrou tão entusiasmada. Ela diz que Brasília "é de um passado esplendoroso que não existe mais", para logo em seguida observar que a cidade é "mal-assombrada", uma paisagem para insones. E, além de tudo, "assexuada". Idealizada como cidade da igualdade democrática, em que o trânsito interclassista não seria perturbado - mas livre, como uma via pública sem semáforos -, Brasília deixou de ser um "sonho ideológico" para se tornar "um pesadelo na prática", segundo o arquiteto Carlos Nelson Ferreira dos Santos (1943-1989). Sua opinião é dividida pelo colega Joaquim Guedes (1932-2008), que, num texto dos anos 1980, critica o "grande equívoco" inicial de destinar Brasília aos automóveis para concretizar as "fantasias desenvolvimentistas de Juscelino" e destruir a rua como espaço social. A culpa foi do momento histórico, que levou todos a "delírios megalômanos", conclui Guedes.

Umberto Eco, num ensaio de 1968, fica com a última palavra: "Da cidade socialista que deveria ser, Brasília tornou-se a própria imagem da diferença social". Embora reconheça que um arquiteto não pode mudar o mundo, o autor de O Nome da Rosa argumenta que Brasília acabou cercada de favelas esquálidas, "um imenso 'slum' feito de barracos, bares miseráveis e pontos de prostituição".

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