Brasília: projeto inacabado

O crítico Kenneth Frampton observa inadequações em seu retorno à cidade, que figuram no texto a ser editado em livro pelo IMS, cujos trechos o Estado revela com exclusividade

Kenneth Frampton, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

Brasília foi inaugurada em um momento particularmente suscetível no processo de modernização política e cultural do Brasil, em uma década na qual foram aprovadas leis no intuito de facilitar a desapropriação de terras como um instrumento de planejamento para fazer frente à migração em larga escala do campo para as cidades.

 

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À época, desenvolvimentos significativos ocorriam na arquitetura e nas artes; o mais importante dentre eles, sem dúvida, a emergência de uma linguagem especificamente brasileira nessas áreas, com origens em fins da década de 1930, na obra pioneira de figuras como Oscar Niemeyer, Affonso Reidy, Candido Portinari e Roberto Burle Marx. Tomando a obra desses artistas como seu ponto de partida, nos primeiros anos da década de 1950, Vilanova Artigas dava início à assim chamada escola paulista de arquitetura, envolvendo profissionais como Paulo Mendes da Rocha, Rino Levi e Lina Bo Bardi. Pela mesma época, o poeta Ferreira Gullar publicava o seu Manifesto Neoconcreto (1959), no qual procurava aprofundar um já fértil intercâmbio entre artistas concretistas europeus e latino-americanos. Movimento este que já havia levado ao surgimento de proeminentes artistas como Mary Vieira, Lygia Clark e o onipresente Athos Bulcão.

Tudo isso coincidia com um movimento crucialmente progressista em uma escala global, quando a estratégia neocolonial da Pax Americana se tornava mais moderada e quando os confrontos da Guerra Fria se prestavam - não importa quão inadvertidamente - a manter um equilíbrio entre o Estado do bem-estar social neocapitalista do pós-guerra e o assim denominado bloco comunista; um momento, contudo, em que ajustes de maior envergadura ainda estavam por se iniciar, em que as florestas tropicais ainda estavam relativamente intactas e a transformação do clima ainda não havia alcançado o seu ponto crítico. Que Brasília tenha sido realizada na crista de uma onda histórica tão promissora é comoventemente evocado pelas fotografias elegíacas do francês Marcel Gautherot, tiradas entre 1956 e 1960, quando o núcleo inicial da nova capital estava em construção.

Nascido em 1910, de origem operária, Gautherot estudou arquitetura e design de interiores na École des Arts Décoratifs, Paris, antes de se sentir incentivado, em 1936, com a criação do Museu do Homem, a documentar a vida diária daquelas pessoas comuns que, por todo o mundo, ainda estavam integradas a uma economia culturalmente enraizada na era pré-industrial.

Foi esse impulso etnográfico que primeiro o trouxe ao Brasil, em 1939, para documentar a cultura do delta amazônico. Seria muito no mesmo espírito que, duas décadas mais tarde, Gautherot abordaria a sua documentação da Brasília "en chantier".

As suas imagens da capital em construção no "hinterland", em meio a um planalto parcamente povoado, ressurgem hoje como os stills esquecidos de um filme do realismo socialista, com a estrutura de aço e os 28 andares da torre dupla do Congresso elevando-se como uma miragem por entre os redemoinhos de poeira do cerrado aplainado.

Seja como for, é tocante descobrir que a primeira residência presidencial, erigida em meio a um matagal, era tão rudimentar quanto os barracões providos pela Novacap para a acomodação da mão de obra operária. Estou me referindo ao "palácio" Catetinho, com seus dois andares e cobertura de uma água, construído inteiramente de madeira em menos de dez dias em 1956, segundo risco de Niemeyer. Como um equivalente necessariamente provisório da tradicional residência presidencial no Rio, esse diminuto palácio dá testemunho, tanto quanto qualquer outra realização conjunta, da duradoura e estreita amizade entre Niemeyer e Kubitschek. É difícil imaginar algo mais íntimo do que aquela suíte presidencial com seis dormitórios, aos quais se tem acesso por uma varanda aberta para a mata. A presença de um barzinho despretensioso nesse belvedere nos leva a imaginar a entourage presidencial chegando num Dakota, ao cair da noite, ao campo de pouso próximo.

Nenhuma das cidades-capital contemporâneas fundadas após a 2.ª Guerra pode se igualar a Brasília, seja pelo caráter monumental, geomântico, da sua concepção, quanto à subsequente rapidez da sua realização.

Heranças. Patentemente influenciado por Le Corbusier, mas transcendendo a sua visão da cidade radiosa, o Plano Piloto de Lúcio Costa tomou a remota herança cultural do mundo antigo como ponto de partida - da grandiosidade axial do Egito aos paradigmas cosmogônicos fundadores do Império Romano. Daí o cardo e o decumanus que informaram o primeiro croqui de Costa, a tão conhecida cruz que constituiria o esqueleto do seu plano, assumindo a silhueta de um gigantesco pássaro primevo pousando no local como signo de um destino cósmico. Enquanto a fronte triangular desse pássaro mítico - o nexo simbólico da praça dos Três Poderes - nunca foi realizada na sua forma triangular original, as asas residenciais Norte e Sul dessa estrutura foram plenamente desenvolvidas, em um primeiro momento pelos prédios das superquadras ocupando a asa Sul e, na sequência, por aqueles mais densos e variados que vieram a preencher a asa Norte (...)

Pode-se dizer que, não obstante todo o seu status heroico como uma capital nacional, Brasília permanece o projeto moderno inacabado "par excellence", suspensa entre a aparentemente não planejada, e pós-moderna, economia do laissez-faire de suas cidades-satélites e a visão modernista e planejada (contudo ainda distante de ter sido consumada) de um modo de vida inteiramente novo. / TRADUÇÃO DE SYLVIA FICHER

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