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Milton Hatoum
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Brasília e uma crônica inacabada

Não me lembro de todas as crônicas inacabadas, talvez para sempre. Às vezes, surge uma ideia interessante, mas na hora de escrever, as palavras somem. E quando faltam palavras, caro leitor, as ideias mais luminosas rondam uma zona sombria, e você fica olhando bestamente a folha de papel, maldizendo as musas e até o Espírito Santo, que não soprou no momento certo.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2014 | 02h05

Um romance pode permanecer à espera de um sopro providencial, ou de uma iluminação súbita, o "alumbramento" a que se referia Manuel Bandeira. Mas o cronista - ao contrário do romancista - olha preocupado a areia que escorre na ampulheta. Acuado pelo prazo fatal, ele não pode esperar o santo baixar nem a pomba do divino soprar.

Às vezes, a lembrança de uma cena surge numa noite de insônia, mas pode morrer na terceira linha do primeiro parágrafo. Isso aconteceu há uns seis anos, quando eu me lembrei de um episódio de 1969, quando eu estudava em Brasília, uma cidade vigiada e, não raramente, sitiada.

Nas tardes de sábado, pegava o ônibus na Asa Norte, descia na W3 sul e andava até a superquadra 308 para ver o painel de azulejos na fachada da Igrejinha. Admirava o desenho de figuras geométricas e pássaros azuis e brancos, obra-prima de Athos Bulcão; entrava na igreja e via os vestígios do afresco de Volpi, uma pintura perdida para sempre. Depois observava por vários ângulos a própria igreja, que eu considerava (e ainda considero) mais bela em sua leveza e plasticidade do que a capela de Ronchamp, de Le Corbusier.

Não havia museus de arte em Brasília, daí a visita à Igrejinha e também ao Hotel Nacional, onde eu gostava de ver uma escultura de Mário Cravo, o Tocador de Berimbau, cuja forma ousada e estranha, influenciada pelo cubismo, me fascinava. Havia outras esculturas e pinturas notáveis no interior dos palácios da capital (Itamaraty, Alvorada...), mas eram lugares proibidos, cheios de salões e passarelas verdes onde militares e civis tramavam enredos infames e monstruosos.

Na aridez sinistra de Brasília, as obras de Cravo, Bulcão e Niemeyer pareciam deslocadas, como se o tempo da arte e da arquitetura tivesse parado bruscamente para dar lugar a uma brutalidade que até hoje nos assombra. O futuro era mais incerto do que uma profecia, e, apesar das adversidades daquela década, vários artistas atuavam nas cidades-satélites, nas escolas da capital e também no campus da UnB, mesmo depois do expurgo de mais de cem professores, em 1965.

Uma outra arte - a do amor e seus demônios - era vivida num dos raros pontos de fuga da cidade: o Lago Paranoá, enorme remanso na capital do medo.

Numa canoa amarela, dois remadores viam Brasília do meio do lago, suas margens ainda quase desertas, a arquitetura que perdia suas formas esculturais no anoitecer. Tudo se distanciava e se dissolvia na escuridão do cerrado, e até o medo se dissolvia na noite atemporal, em que os dois remadores apaixonados deixavam o vento conduzir a canoa ao porto do desejo...

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