Brasileiros têm unido entretenimento e sofisticação na literatura policial

A melhor ficção policial contemporânea permite que se coloquem, no campo mesmo da ficção, temas bem atuais

Flávio Carneiro - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2013 | 19h39

No final de 1884, o misterioso desaparecimento de um cadáver, roubado do São João Batista, mobiliza o Rio de Janeiro. A administração do cemitério não sabe dizer ao certo quem estava enterrado naquele túmulo. A polícia nem desconfia. Os jornais dão cobertura à história, atraindo cada vez mais a curiosidade dos leitores.

Em janeiro do ano seguinte, sem que o caso tenha sido esclarecido, surge um folhetim publicado anonimamente em A Semana com o título Mattos, Malta ou Matta? Logo no início, o leitor é informado de que se trata de uma série de cartas verdadeiras, enviadas ao jornal com a intenção de elucidar de vez o mistério do cadáver desconhecido.

Ironicamente, um dos nossos primeiros romances policiais teve sua autoria envolta numa trama de mistério, só de fato desvendado um século depois, quando pesquisadores da Casa de Rui Barbosa atestaram o nome do verdadeiro autor do folhetim: Aluísio Azevedo.

Desprezado pela crítica, Mattos, Malta ou Matta? é colocado ao lado das obras menores de Aluísio, para não ser confundido com sua obra naturalista, esta sim canonizada. Às vezes não é sequer citado. O próprio autor, aliás, não fez nenhuma questão de reivindicar para si a autoria.

Nossa ficção policial nasce, portanto, com um estigma que irá acompanhá-la no século seguinte: entretenimento e literatura de qualidade não cabem na mesma página.

Nos anos 1930, são lançadas as primeiras coleções policiais no Brasil, em traduções de clássicos como Doyle, Agatha Christie, Hammett. O sucesso das coleções incentiva alguns editores a publicarem nossas primeiras revistas dedicadas ao policial.

A Detetive é a principal delas, e na década seguinte, sob direção de Nelson Rodrigues, publica pela primeira vez no País contos de uma escritora brasileira: Patrícia Galvão, a Pagu, musa do movimento modernista. Mas publica com um pseudônimo: King Shelter. Os contos seriam reunidos em livro somente no final dos anos 1990, agora com o nome da autora, sob o título Safra Macabra.

A partir dos anos 1980, algo se modifica nesse panorama. A crítica, em especial a praticada dentro das universidades, começa a demonstrar interesse, cada vez maior nas décadas seguintes, pelo estudo do policial. E por que a mudança?

Uma hipótese: no que há de melhor na atual ficção policial brasileira, a trama, sem perder seu caráter de entretenimento para o grande público, oferece de forma velada questões relevantes para os estudos acadêmicos. É o que encontramos, por exemplo, em Rubem Fonseca, Garcia-Roza, Verissimo e, mais recentemente, Alberto Mussa.

São autores que colocam na berlinda o estatuto da verdade, justamente aquele que está na origem do policial e o sustenta enquanto gênero. Na melhor ficção policial contemporânea, não só brasileira, os lugares do detetive, do criminoso e da vítima giram a cada instante, relativizando o que seja afinal a verdade e permitindo que se coloquem, no campo mesmo da ficção, temas bem atuais, como os tênues limites entre realidade e fantasia, originalidade e cópia.

Uma das regras do policial, estabelecida por Todorov e seguida por muitos, é que não se pode ser original dentro de um gênero popular. Ou se é sofisticado, e aí temos de fato uma obra original, ou se é popular, e aí devem ser seguidas as normas que tornam o gênero o que ele é. Noutras palavras, ou se faz boa literatura ou se faz romance policial.

Há regras demais nessa história. Sempre aparece alguém dizendo o que se deve e o que não se deve escrever quando se trata de romance policial. E o melhor que se pode fazer – eis outra regra – é seguir fielmente os passos do mestre, com direito a pequenas invenções aqui e ali.

Alguns de nossos autores têm contrariado essas normas, criando uma ficção policial bem cuidada, que se estende para além da leitura ligeira, colocando no mesmo espaço entretenimento e sofisticação. E abrindo, com a chave certa, as portas quase sempre cerradas da academia. As do gosto popular, como se sabe, já estavam abertas há tempos.

FLÁVIO CARNEIRO É ESCRITOR E AUTOR DE O CAMPEONATO E O LIVRO ROUBADO (ROCCO), ENTRE OUTROS

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