Brasileiros perdidos por aí

Muitas das nossas promessas são vãs, mas prometi a mim mesmo que, no começo deste ano, faria uma faxina no meu escritório, que parece um almoxarifado com objetos inúteis e papéis esquecidos há muito tempo.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2011 | 00h00

Com tanta chuva e umidade desse e de outros verões paulistanos, encontrei folhas suadas e mofadas de um caderno pautado, onde rabiscara poemas inacabados para sempre, poemas sem data, talvez escritos em outras cidades, ou durante alguma viagem. Separei e encaixotei livros que não vou reler; numa gaveta encontrei um cemitério de despertadores com pilhas oxidadas; marcavam horários diferentes, mas todos pararam de funcionar minutos depois da meia-noite ou do meio-dia.

Vasculhando aqui e ali, encontrei numa caixinha de madeira um charuto cubano datado de 1988 e um bilhete: presente do doutor Eliomar Sampère. Não me lembro desse doutor. Médico ou advogado? E por que diabo ele me deu um charuto de presente? Nunca fumei charutos, fossem cubanos, dominicanos ou baianos.

Separei para a reciclagem de papel quatro centenas de folhas datilografadas, versões de um manuscrito que jamais será livro. Juntei outras folhas com anotações de argumentos e ideias literárias, muitas folhas com planos de aula e traduções, e joguei tudo no caixote de reciclagem. Foi um ato impulsivo, sem um pingo de arrependimento. A hesitação é a maior inimiga da faxina.

E essas três caixas de sapatos?

Abri duas e vi pilhas de cartas de uma outra era, cartões-postais enviados de Sitges e Lloret del Mar para Paris e Manaus: cartões manchados de mofo, grudados uns nos outros. Desgrudei-os com cuidado, eliminei traças gordas e vorazes, vi fotos belíssimas das duas cidades catalães à beira do Mediterrâneo; para evitar crises de nostalgia e ardor nos olhos, preferi não ler as palavras dos postais, escritas com a mesma caligrafia. Se ela estiver viva, onde estará morando? Por uns segundos, fiz perguntas sobre o passado: um modo de ser nostálgico sem ser sentimental ao extremo.

Na terceira caixa encontrei o diário da minha segunda viagem ao alto rio Negro, com fotos aéreas dos grandes lagos, próximos a Iauareté Cachoeira; lembro que o piloto do helicóptero sobrevoou os lagos e fez uma rasante na floresta; depois ele disse: essa é a última fronteira virgem do Brasil. Com o coração na boca, fotografei os lagos misteriosos e pedi ao piloto para que ganhasse altura, pelo amor de Deus. Vi muitas fotos dessa viagem, vi também duas borboletas cujas asas bicolores exibem uma geometria complicada, mas simétrica; penso que o escritor russo Vladimir Nabokov não conheceu esses espécimes da última fronteira virgem. São belos, e essa beleza resistiu ao tempo. Essas borboletas foram encontradas mortas por uma índia tucano, e ainda vejo as mãos abertas me oferecendo os dois lepidópteros que repousavam inertes na floresta.

E no fundo da caixa - não sei por que nessa caixa, pois há aí um salto cronológico - encontrei seis folhas amassadas com um longo poema escrito na Europa: Brasileiros perdidos por aí.

O poema não vale grande coisa, vai ver que não vale nada. No meu íntimo, penso que fiz essa faxina para encontrar esse poema que procuro há anos, quando não sabia o que fazer da vida e, por isso mesmo, talvez fosse mais feliz.

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