Brasileiro vira astro literário no Canadá

Sérgio Kokis, saiu do Brasil em 1967, pressionado pela ditadura militar, e nunca mais voltou. Desde 1969, ele vive no Canadá, onde fez carreira acadêmica na área de psicologia e se dedica à pintura.Kokis tornou-se escritor apenas na década de 90 com o romance Le Pavillion des Mirois (O Pavilhão dos Espelhos), um êxito instantâneo que levou o governo do Quebec a batizar, em 1997, uma ilha canadense com o título do livro e seu autor receber os quatro prêmios literários mais importantes do Canadá francês.O livro foi traduzido para o inglês, alemão, espanhol, com recepção crítica muito favorável. Hoje, ele integra o time de escritores híbridos do país, que tem sido celeiro desse novo tipo de autor em razão de uma imigração maciça de intelectuais nos últimos anos.Kokis tem sido classificado como expoente dessa literatura, ao lado de Michael Ondaatje, nascido no Ceilão, que começou escrevendo poesia e ensinando literatura em Toronto.Desencanto - No final do ano passado, o leitor de língua portuguesa pôde conhecer o romance, publicado pela Record. Na obra, Kokis conta sua vida e de sua família no Rio dos anos 50, revelando um País que transitava entre o otimismo da era JK às desilusões amargas da miséria na qual estava mergulhada a maior parte de seus habitantes.A narrativa elegante, lambuzada de uma atmosfera sensualista, certamente contribuiria para aplacar a sede dos leitores do Hemisfério Norte pelos elementos e cenários tropicais, mas isso não ocorre porque Kokis destila uma visão desencantada e cruel do País que abandonou há mais de 30 anos.Kokis, 56 anos, admitiu em uma entrevista distribuída pela Record (ele não quer falar sobre o assunto) que se sente mais canadense do que brasileiro e que nada o prende mais ao Brasil. "Uma língua é uma entidade viva, que exige dedicação, senão perde sua flexibilidade, sobretudo para a ficção", disse a respeito de se exprimir em francês, na prosa, e em inglês, na poesia.O fato de nunca ter se aventurado a escrever em sua língua materna também contribuiu para que sua expressão se manifeste de modo distinto e alheio à tradição da literatura brasileira.Laços Cortados - Kokis não apenas cortou o cordão umbilical lingüístico com o Brasil como eliminou qualquer veleidade de visitá-lo. Nesse sentido, A Casa dos Espelhos pode ser compreendido como a delicada e longa cirurgia que extirpou os laços com sua terra de origem.O autor nega, no entanto, que tenha escrito uma obra biográfica e afirma ter se utilizado da narrativa na primeira pessoa apenas como recurso literário.O livro ainda propõe uma reflexão pouco comum na literatura brasileira, sobre a estética e a psicologia da criação artística. Proposta bem resolvida pela criação de personagens experimentais que apóiam as reflexões alinhavadas pelo escritor.Nem mesmo laços afetivos prendem Kokis ao Brasil e um certo ressentimento pode ser percebido em seus depoimentos: "Minhas experiências com os camaradas brasileiros do meu tempo não foram as mais agradáveis. Quando a coisa ficou preta, percebi que os camaradas eram um pouco menos sérios que eu. Dessa maneira, meus laços de amizade não eram também suficientes para recordar um Brasil acolhedor."Tanto Kokis quanto seu colega de exílio voluntário Monteiro aproximam-se, e talvez nem pudesse ser de outra maneira, de uma visão pessimista do País que deixaram. Para o primeiro, "o Brasil não se libertou ainda da escravatura e do colonialismo", opinião que trai a desilusão e a desesperança de quem lutou contra o regime militar e foi derrotado.Globalizados - Monteiro alega ter sido vítima de uma cruzada cultural que o teria deixado sem oxigênio, ao que acabaria sucumbindo: "Quando você se torna inimigo de quem está no poder da cultura, você é radicalmente excluído".Os dois autores híbridos nascidos no Brasil propõem desafios para sua inserção na corrente histórica da literatura nacional. Monteiro ainda a alimenta com sua produção inicial, mas Kokis parece tão distante dela quanto se sente em relação à sua cultura. Talvez ambos pertençam a uma categoria um tanto antipática aos intelectuais, a de autores globalizados.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.