Divulgação
Divulgação

Brasileiro 'O Som ao Redor' é forte candidato a prêmio em Gramado

Filme de Kleber Mendonça trata da sociedade recifense em perspectiva abrangente

Luiz Zanin Oricchio / GRAMADO,

17 de agosto de 2012 | 20h51

O longa-metragem brasileiro O Som ao Redor vai encantando a plateia e caminhando para o seu desfecho quando... puf! O som pifou. Uma das caixas de som estourou e os diálogos se tornaram inaudíveis. Sessão suspensa, pedidos de desculpas e remarcação para o filme no dia seguinte. Pronto: toda a apertada a agenda do festival se vê comprometida.

Contratempos à parte, o filme do pernambucano Kleber Mendonça se afirma como candidato aos Kikitos. Está no jogo. E, mais ainda, é um dos títulos importantes do atual cinema de ficção brasileiro, um dos filmes que serão discutidos daqui para frente. Em sua companhia, dois outros concorrentes em Gramado 2012 - O Que se Move, de Caetano Gotardo, e Super Nada, de Rubens Rewald.

Em teoria, essa seria a trinca mais forte a disputar os prêmios. Na prática, vai depender do júri e de suas concepções do que deva ser o cinema, que nem sempre coincidem com as da crítica.

O Som ao Redor, por exemplo, que estamos bancando como filme importante e digno de ganhar festival, foi recusado no prestigioso Festival de Brasília do ano passado. Curioso, não?

Em todo caso, curadorias e comissões de seleção passam e filmes, quando realmente têm algo a dizer, acabam por encontrar seu caminho. É o caso de O Som ao Redor, povoado de personagens do Recife, das classes sociais mais elevadas ao povo miúdo. Eles se encontram em uma das ruas da cidade - uma dessas tantas que eram compostas por casas e agora estão sendo engolidas pela especulação imobiliária e seus edifícios altos e "nobres", como eles mesmos se definem. A rua, na prática, pertencia, a um senhor de engenho (interpretado pelo escritor paulista Solha, residente na Paraíba), Sr. Francisco, que agora recicla o capital em negócios imobiliários. Ele e todos os descendentes, filhos e netos, que se misturam à classe média que lá vêm morar nos apartamentos e com os porteiros, empregadas e seguranças que são seus empregados.

O filme tem essa vocação de corte vertical da sociedade, ambição rara de se encontrar hoje no cinema brasileiro, muito ocupado em questões miúdas e umbilicais.

Antes de O Som ao Redor, havia sido exibido o último concorrente da mostra latina, Calafate - Zoológicos Humanos, de Hans Mulchi Bremer. O filme, que já participara do festival de documentários É Tudo Verdade, trata de um assunto abordado sob a forma de ficção em Vênus Negra, de Abdellatif Kechiche. No século 19, levavam-se à Europa seres "exóticos" para serem exibidos em feiras e estudados pelos cientistas. Em Vênus Negra, era uma africana; em Calafate, são índios da região da Patagônia.

O filme acompanha uma intensa campanha simbólica de reparação, sob a forma de repatriação dos ossos de alguns desses seres humanos levados à Alemanha como curiosidades. O documentário é profundo e humano. Perde-se no tom algo choroso e piegas. Mas o essencial está lá: a relação assimétrica entre seres que se consideravam superiores e os outros, vistos como meras aberrações a serem fruídas e estudadas. O velho colonialismo, agora sob a forma do espetáculo.

Neste sábado, 18, à noite, entregam-se os Kikitos. O veredicto, como já se disse, depende da formação do júri. O que se pode dizer é que o júri dos longas brasileiros terá excelente material para distribuir suas estatuetas, sem cometer injustiças. Entre os curtas também as opções são variadas. Entre A Mão Que Afaga, Di Melo - O Imorrível, Diário de não Ver, ou O Menino do Cinco, qualquer opção deve ser vista como válida. Faltam ainda dois curtas a serem apresentados, Um Diálogo de Balé e O Duplo. O júri de latinos, cuja mostra deixou a desejar, tem pouca alternativa. O favorito é Artigas - La Redota.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.