Brasileiro faz releitura

Mostra no Sesi reúne criações de várias décadas de Leirner

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2011 | 00h00

Irreverente, iconoclasta, jovial, irônico. Esses são os "estigmas" colados na figura de Nelson Leirner - e que ele está cansado de rejeitar. "Sempre dizem: "parece exposição de jovem" e eu não sei se isso é um elogio ou uma crítica, mas me parece mais crítica", diz o artista na Galeria de Arte do Sesi, onde apresenta a mostra Nelson Leirner 2011-1961=50 Anos, que reúne cerca de 40 obras perpassando décadas de sua trajetória. Não se trata de uma retrospectiva, mas um "apanhado", ele prefere dizer, que coloca suas criações lado a lado sem cair no percurso cronológico.

Se em 1967 ele apresentou ao júri do Salão de Brasília um porco empalhado numa gaiola de madeira perguntando se aquilo era arte, agora, prestes a completar 80 anos, afirma que não há mais como ser radical. "Como, se sua radicalidade é consumida? Quando isso acontece, não há mais discurso", diz Leirner, que não pode, na verdade, rejeitar o título de ser um eterno provocador.

O famoso porco empalhado - que pertence à Pinacoteca -, não está na mostra, mas estão obras tão importantes da trajetória do artista como Que Horas São Dona Cândida (1965), painel com uma sequência de relógios; Você Faz Parte (1964), quadro com fechaduras e chaves agigantadas; a sua série kitsch de desmistificação da obra Santa Ceia, que ele criou na década de 1990; o quadro O Timão (1967), representando os jogadores do Corinthians (time do artista) sem rostos; suas divertidas e inteligentes instalações dos anos 2000 feitas com miniaturas de figuras e brinquedos do universo mais banal e popular possível. Mais ainda, a exposição tem como grande destaque apresentar conjuntos de desenhos de Leirner que são pouco ou quase nunca vistos, como Uma Linha Dura Não Dura...Dura (de 1978, sobre a ditadura militar) e Rebelião dos Animais (1972).

O curioso da mostra é estabelecer a relação entre os trabalhos de diferentes períodos, com hiatos, por vezes, de 40 anos, e que parecem ter sido feitos na mesma época. "Estou me relendo", diz Leirner que, como professor, instigava nos alunos a postura crítica. Hoje, entre suas obras mais recentes, está a continuação de sua série de "homenagens" - depois da homenagem a Lucio Fontana, obras que remetem ao "construtivismo naval", "construtivismo rural" e a Mondrian. A exposição exibe ainda vitrines com a série Hobby, realizada pelo artista nos últimos 10 anos e com peças de intervenções em convites de galerias, postais de museus e outros "produtos" do mundo da arte.

NELSON LEIRNER

Galeria de Arte do Sesi. Avenida Paulista, 1.313, telefone 3146-7405. 3ª a sáb., 10 h/20 h (2ª, 11 h/ 20 h; dom., 10 h/19 h). Grátis. Até 16/11

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