Brasileiro 'Falsa Loura' discute aparências que enganam

Longa traz história de Silmara, uma loura tingida que, apesar de ser operária empenhada, sofre preconceito

Alysson Oliveira, da Reuters,

17 de abril de 2008 | 10h42

As aparências enganam, diz a sabedoria popular. E o cineasta Carlos Reichenbach (Bens Confiscados, Dois Córregos) explora a fundo essa idéia em seu novo filme, Falsa Loura, que estréia nesta sexta-feira, 17, em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.  Veja também:Trailer de 'Falsa Loura'  Silmara (Rosanne Mulholland, de A Concepção) é a loura tingida. Apesar de ser operária empenhada, sofre preconceito por parte das amigas. Isto acontece em parte porque é muito bonita - e algumas insinuam que ela é também garota de programa - e também por parecer se colocar num patamar acima das outras. Isso fica claro numa das primeiras cenas do filme, quando a colega de trabalho Briducha (Djin Sganzerla, prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival de Brasília do ano passado) quer ir com ela a um show de sua banda preferida, Bruno e seus Andrés. Mas Silmara a rejeita, dizendo que a garota é feia demais para frequentar o clube. Essa primeira imagem de Silmara, esnobe e superior, é desmontada aos poucos. A moça trabalha para sustentar o pai, um ex-presidiário desempregado (João Bourbonnais). Além disso, ela tenta mediar as relações entre o pai e o irmão homossexual (Léo Áquila), que não se falam. E, finalmente, Silmara colabora para transformar Briducha numa garota mais elegante. Mas o calvário da falsa loura está apenas começando. Como esse é um mundo de aparências, o conto de fadas em que a vida de Silmara se transforma é apenas uma desculpa para Reichenbach explorar as formas como a realidade bate a porta, mais cedo ou mais tarde. Silmara vai ao show e acaba se envolvendo com seu ídolo, o cantor Bruno de André (Cauã Reymond). O que para ela é um relacionamento sério, para ele é só mais uma aventura com uma fã bonita e pobre. Mais tarde, ela se envolve com outro ídolo popular, o cantor romântico Luís Ronaldo (Maurício Mattar). Parece literalmente outro conto de fadas. Reichenbach não mede esforços para tornar onírica a atmosfera onde se dá o breve romance entre os dois. Mais uma vez, nada é o que parece. Nas mãos de outro cineasta, o calvário de Silmara poderia tornar-se um melodrama excessivo e pesado. No entanto, Reichenbach, que também assina o roteiro, conduz os altos e baixos da vida da personagem com habilidade e humor. Não há uma cena sem propósito no filme. Até momentos que parecem deslocados, mais tarde fazem sentido, como o fim de semana com Luís Ronaldo, quando a Falsa Loura parece caminhar para outros rumos. Rosanne Mulholland, por sua vez, mostra a que veio. Aqui, o talento esboçado em A Concepção prova ser verdadeiro. Ela interpreta Silmara com toda a dignidade que a personagem merece. O diretor confessou, inclusive, que mudou o final do filme, pois não condizia com a interpretação que ela havia criado. O que Falsa Loura lembra em seu final é que a aparência enganadora dos fatos não é necessariamente negativo - um saldo positivo pode surgir no final. Silmara cresce como personagem, deixando transparecer o que há de bom por trás daquilo que parecia frio e egoísta. Depois das decepções, ela emerge como uma pessoa melhor. Enfim, Reichenbach despeja um mar de esperança em meio à descrença.

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