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Ed Ferreira/Estadão
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Brasileires

Um céu de brigadeiro, uma luz perfeita, para a posse do novo governo

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2021 | 03h00

Segundos antes da meia-noite de 1º de janeiro. Rolling Stones fazem com Paul McCartney em português a contagem regressiva do ano que se vai, num réveillon histórico na Praça dos Três Poderes. No show, a multidão em festa pula, canta, delira. Até o amanhecer.

Um céu de brigadeiro destaca as formas e curvas dos palácios de Brasília. Uma luz perfeita, para a posse do novo governo. Mais pessoas chegam caminhando pela Esplanada dos Ministérios. Carregam bandeiras do Brasil, azuis, vermelhas, laranjas, verdes, com as cores do arco-íris.

Poucos ainda usam máscaras. A maioria traz no ombro a tarja que marcou a campanha eleitoral: Vacina Sempre! Depois de um terrível momento de incertezas e ameaças às instituições, o País faz festa para a troca de comando, que oficialmente já começou.

O primeiro ato entrou em vigor no mesmo dia: a volta do horário de verão. Será então o dia mais longo em anos. Festas foram agendadas em todas as partes. Estados conhecem seus novos governadores, confirmados pela urna eletrônica. Será o verão do amor&democracia.

O presidente anterior, como esperado, não fez a transição do poder, não fará a transmissão da faixa. Foi visto com os filhos e alguns assessores entrando na Embaixada da Hungria, gritando:

– Fraude!

O grupo pediu asilo depois da perda de imunidade e de emitidas as ordens de prisão por prevaricação, desobediência à ordem institucional, tentativa de golpe, formação de quadrilha, homofobia, xenofobia, injúria e incitação ao crime, corrupção passiva e ativa, abuso de poder, improbidade administrativa, falta de decoro e aglomerar sem máscara.

Condenados pelo Tribunal de Haia, foi difícil achar um país que os aceitasse. O soldado e o cabo enviados para fechar o STF foram presos. A tentativa não vingou, já que nenhum dos dois sabia manejar um câmbio manual.

O novo presidente dispensou o Rolls-Royce. Segundo assessores ambientalistas, o carro é extremamente poluente. Vai até o púlpito de bike. Antes, enviou a Força Especial para retirar garimpeiros de terras indígenas.

Determinou que aviões da FAB bombardeassem a Amazônia e o Pantanal com mudas de árvores nativas, proibiu a exportação de madeira, determinou a implantação imediata de placas de energia solar em prédios públicos, exigiu que a Marinha colaborasse com a Guarda Costeira no patrulhamento de reservas marítimas.

Despachou exigindo a volta dos livros retirados do acervo da Fundação Palmares e liberou as verbas bloqueadas do audiovisual: perto de 300 produções retomam as filmagens já em janeiro.

Autoridades internacionais se apertam no espaço reservado. As capas dos ministros do Supremo se erguem com o vento. O chefe de gabinete trans, assim como o porta-voz fanho, ou melhor, PDT (Pessoa com Diferença Tonal), indicam os locais dos presidentes da Rússia, dos Estados Unidos, da França, Argentina, de Cuba, primeiros-ministros da Alemanha, do Japão, da Espanha, Itália, de Israel, do Canadá, líderes supremos da China e Coreia do Norte, esposas e esposos.

Esqueceram-se de convidar o presidente venezuelano, gafe que foi ofuscada pelas ausências dos chefes de Estado das Filipinas, da Turquia, Hungria e Polônia, aliados do antigo governo.

Lavadeiras do Senhor do Bonfim dão os últimos retoques na rampa. Representantes de todas as religiões sobem juntos: pastores, bispos, rabinos, aiatolás, monges, xintoístas e taoistas. Babalorixás defumam o local.

Caciques e pajés das grandes nações indígenas caiapós, ianomâmis, krenaks, terenas, macuxis, kalapalos, guaranis, mundurucus, pataxós, xavantes, bororos, ticunas esperam o presidente no pé da rampa. Todos vieram presenciar o histórico momento em que forças democráticas venceram a grande ameaça autoritária que contaminou o País.

Malala, Greta Thunberg e Sônia Guajajara foram escolhidas para entregar a faixa ao novo presidente. Que, enfim, estaciona a bike e sobe a rampa escoltado por guerreiros xavantes e quilombolas.

Abraça o presidente russo e o convence a apertar a mão do americano. Assina ali mesmo o pedido de revogação da Lei de Segurança Nacional. Dá posse à nova ministra da Defesa. Depois de anos, o controle das Forças Armadas volta aos civis. E, pela primeira vez, a uma mulher.

O presidente chega ao púlpito. Acena. A multidão urra. Checa a altura do microfone e começa:

- Brasileires...

Um espetáculo de estrelas douradas cai do céu. Todos fazem “ohhh”. O efeito deixa a delegação japonesa invejosa. O brilho desconcentra o novo presidente. Aquilo estava na programação?

Não eram estrelas, mas pequenos fragmentos que se incendeiam e cruzam a atmosfera seguidos por rastros de fumaça e explosões cada vez maiores. Os seguranças entram em cena. Um clima de apreensão. Mais estrelas pipocam.

– This is the end! – aponta Greta.

Chega a notícia de que explodiu a Estação Espacial. Seus fragmentos atingiram satélites de comunicação, gerando uma destruição em cadeia. Celulares aos poucos param de funcionar.

Corre-corre no Palácio, no gramado, pessoas começam a gritar assustadas. Pedaços de satélites cruzam os céus. Parecem fogos de artifício. Da varanda da suíte presidencial, Paul pergunta a Mick:

– Satisfied?

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

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