Brasileira Marta Goes estréia peça em Nova York

"Albee dizia algo como ´os críticos não deveriam adiantar nada aos leitores para que o ato de ver uma peça continuasse a ser uma aventura perigosa e não algo completamente seguro´. Ele tem sua parcela de razão." A declaração acima é da jornalista e dramaturga Marta Goes sobre a afirmação de Edward Albee, dramaturgo mundialmente consagrado, autor de Quem Tem Medo de Virgínia Wolf. Não por acaso foi citada por Marta, que acaba de ver sua peça Um Porto para Elizabeth Bishop estrear no concorrido circuito teatral de Nova York (no 59E59 Theaters) com direção de Richard Jay-Alexander e atuação de Amy Irving. Mais que isso, viu sua história sobre a poetisa americana (que aportou no Brasil em 1951, viveu no país por 15 anos e se apaixonou pela arquiteta Lota Soares e pela cultura brasileira) ganhar destaque em publicações como a The New Yorker, o New York Times e o New York Post. Marta conta que o mesmo Albee foi assistir a Safe Harbor for Elizabeth Bishop e, ao final da apresentação, aplaudiu de pé. Mais que isso, perdeu uma aposta com o cenógrafo Jeff Cowie, de quem é amigo e com quem havia apostado que era impossível transformar uma história de amor em monólogo. O teatrólogo se rendeu, público e crítica aprovaram. Só mesmo Charles Isherwood, crítico do NY Times, não concordou. E escreveu uma crítica, no mínimo, azeda. "Como esta peça já tem uma história de cinco anos, já foi comentada por tanta gente experiente, não preciso acreditar que a única que fala mal é a mais importante", diz Marta. Para ela, que nasceu nos Estados Unidos, mas cresceu em Petrópolis e era vizinha de Bishop, a visão de Isherwood é compreensível. "É sobre a Elizabeth que ele esperava ver. Reagiu de forma irada. Ele esperava uma quase radiografia. Foi inicialmente assustadora, mas sua crítica me ajuda a entender seu ponto de vista." A própria autora também tem suas ressalvas diante da montagem de seu texto, que encantou a atriz norte-americana Amy Irving, que foi casada com o brasileiro Bruno Barreto por 15 anos. "É muito diferente da brasileira, apesar de contar com uma ótima atriz e ser muito caprichada. Isso me fez pensar em como é bom o teatro no Brasil", analisa. "Há sofisticação na montagem Zé Possi (Neto, que dirigiu o espetáculo no Brasil, estrelado por Regina Braga em 2001) que amplia meu texto, que não tem acabamento dramatúrgico matemático como os dos americanos." Para Marta, a montagem norte-americana segue o texto muito literalmente. "A cenografia é quase documental. Já na montagem brasileira há licença para usar os códigos teatrais em vez de apenas objetos de cena." Marta esclarece que sua peça versa "sobre como nós aparecíamos ao olhar de uma artista estrangeira." E foi isso que seduziu Irving, que não viu a peça no Brasil. "Elizabeth viveu por 15 anos com Lota. Eu vivi o mesmo tempo com Bruno. Eu também era uma estrangeira no Brasil. Estar aí numa cultura estranha me permitiu enxergar minha consciência e inseguranças, frutos da vida em um país puritano como os EUA", conta Irving. " A partir da peça, eu falo muito de mim e da minha ligação com este País tão maravilhoso, que aprendi a amar", afirma ela, que ainda tem uma casa no Brasil.

Agencia Estado,

11 de abril de 2006 | 11h54

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