BRASILEIRA

Na Tefaf, a feira de arte holandesa que termina hoje,expert apresenta estudo animador sobre o País

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2013 | 02h13

Os números astronômicos alcançados pelos artistas estrangeiros nos leilões internacionais já estiveram mais distantes das cotações dos brasileiros, embora o Brasil responda apenas por 1% do mercado global de arte (algo em torno de 455 milhões em 2012). Em termos comparativos, só os cinco nomes estrangeiros de maior peso nas vendas no ano passado somam o equivalente à metade daquilo que o Brasil ganhou vendendo obras de arte no período. É só fazer a conta: Rothko (US$ 87 milhões), Francis Bacon (US$ 45 milhões), Picasso (US$ 45 milhões), Andy Warhol (US$ 44 milhões), Jackson Pollock (US$ 40 milhões).

Os dados foram apresentados num simpósio organizado pela Tefaf (The European Fine Art Foundation), uma das mais exclusivas feiras de arte da Europa, que termina hoje, em Maastricht, Holanda, reunindo num mesmo local obras raras de mestres do passado, modernos e contemporâneos (de Velázquez a Gerhard Richter, passando por Courbet, Van Gogh, Modigliani, Matisse, Egon Schiele, Giacometti e Picasso, todos à venda).

A estrela do simpósio holandês, no entanto, foi a despudorada portuguesa Joana Vasconcelos (leia depoimento na página ao lado), que assinou a instalação do hall de entrada da Tefaf. Sua participação na Bienal de Veneza de 2005 surpreendeu a própria artista, que apresentou na mostra italiana um candelabro feito de absorventes higiênicos da marca O.B. Obra que nenhuma a galeria portuguesa se dispôs a mostrar, ela pulou de uma mísera oferta de US$ 900 para US$ 500 mil quando foi exibida em Veneza, que recebe Joana novamente na mostra deste ano (a partir de junho).

O Brasil está a caminho de ter muitas Joanas milionárias, garante a expert irlandesa Clare McAndrew, que participou do simpósio da Tefaf. Economista voltada para o mercado de arte e fundadora, em 2005, da Arts Economics, empresa de pesquisas e consultoria, ela estuda os emergentes há três anos e apresentou um relatório com dados sobre o comportamento do mercado brasileiro, cujas vendas cresceram 31% no último ano. Em comparação com a China, que vendeu quase 7 bilhões, o brasileiro ainda é nanico, dependendo mais das vendas de galerias que dos leilões, ao contrário do chinês (no Brasil, 79% das obras são comercializadas por galerias e apenas 21% por meio de leilões). A China chegou a vender 9,8 bilhões há três anos, liderando o mercado, mas os EUA recuperaram o posto com um crescimento de 5% no último ano, respondendo por 33% das vendas no mundo, segundo dados divulgados por Thomas Galbraith, diretor da Artnet, que também participou do simpósio.

"Um número cada vez maior de artistas brasileiros aparece nos leilões internacionais e os valores das obras subiram até 80% nos dois últimos anos, particularmente os das obras contemporâneas", diz Clare McAndrew. Em contrapartida, o valor das importações anuais de obras de arte pelos brasileiros ainda representam menos que um quarto do valor de uma tela de Andy Warhol. "O Brasil tem leis protecionistas e impostos altos, o que dificulta não só as vendas internacionais dos brasileiros como a importação de obras destinadas a coleções particulares", comenta a especialista, lembrando que o poder de compra dos colecionadores brasileiros hoje é bem maior do que em 2011, quando, pela primeira vez, uma artista brasileira (Adriana Varejão) ultrapassou a barreira do US$ 1 milhão num leilão internacional (em Londres), seguida em 2012 por Beatriz Milhazes, que conseguiu US$ 2,1 milhões num leilão da Sotheby's, em Nova York.

O mercado internacional de leilões para artistas brasileiros ainda é bastante concentrado, segundo a especialista. Em 2012, Beatriz Milhazes respondeu por 24% das vendas, seguida por Vik Muniz (14%), Adriana Varejão (12%), Sergio Camargo (12%) e Portinari (9%). Os outros 30% são divididos por nomes como Di Cavalcanti, Lygia Clark, Tunga, Mira Schendel, Hélio Oiticica, Lygia Pape, Cildo Meireles, Ernesto Neto e mais meia dúzia de afortunados. "São Paulo e Rio concentram 80% dos negócios e as feiras de arte têm um papel muito importante na expansão dos negócios, a tal ponto que, em 2012, as galerias aplicaram 43% dos seus gastos em serviços externos (seguro de obras, aluguel de estandes em feiras, transporte e hospedagem de funcionários)", revela.

Baseando-se em dados divulgados pela Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações), McAndrew disse que as exportações das galerias brasileiras evoluíram de US$ 6 milhões em 2007 para US$ 27 milhões no ano passado (um crescimento de 350%). A pesquisa da especialista também adotou dados fornecidos pela Abact (Associação Brasileira de Arte Contemporânea), que reúne algumas das principais galerias do País. Segundo ela, 82% das obras de arte comercializadas são de artistas contemporâneos, 16% de representantes do período moderno e apenas 2% de mestres antigos. Trabalhos com preço inferior a 52 mil predominaram entre os mais vendidos no ano passado.

Numa tabela comparativa entre preços praticados em 2005 e 2012, a especialista registra um aumento de 629% na cotação das vendas internacionais de Beatriz Milhazes (de 104 mil para 757.701) contra 71% de Vik Muniz (de 21.892 para 37.403). Em contrapartida, a cotação de Portinari recuou de 289.463 em 2005 para 225.284 no ano passado, ainda segundo Mc Andrew, que não sabe como explicar o modesto desempenho de pintores modernos como ele e Volpi no mercado internacional quando comparados aos contemporâneos.

"Há colecionadores europeus que têm Volpi no acervo, mas, ao contrário dos chineses, que estão repatriando sua arte antiga, os brasileiros ainda não têm o hábito de buscar os mestres do passado no mercado internacional, talvez pelo problema dos altos impostos cobrados pelo governo, que inibem, inclusive, a compra para doação de obras a museus." De fato, na Tefaf, um colecionador chinês comprou por 1 mihão um pequeno vaso chinês do século 18, mesmo preço de um pote do mesmo período, ambos vendidos pela galeria Littleton & Hennessy Asian Art de Londres. A China avança. O Brasil deve seguir seus passos, garante a especialista.

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