Hélvio Romero/AE
Hélvio Romero/AE

Brasileira expõe na mais importante mostra de arte contemporânea

Anna Maria Maiolino exibe na Documenta 13 o projeto 'Here & There', com sons da fauna do Brasil

CAMILA MOLINA - O Estado de S.Paulo,

06 de junho de 2012 | 06h39

KASSEL, ALEMANHA - A artista Anna Maria Maiolino comemorou seus 70 anos no dia 20. Estava em Kassel, na Alemanha, onde trabalhava na montagem de sua obra para a nova edição da mais importante mostra de arte contemporânea, a Documenta 13, que, a partir de hoje, é apresentada para convidados e profissionais da área, e no sábado será aberta para o público.

Ela participa da exposição com um projeto especial, Here & There (Aqui & Lá), instalação multidisciplinar abrigada em uma casinha típica alemã, às margens do parque próximo ao museu Staatliche de Kassel. "Criei um projeto de multiplicidade de sentimentos e sentidos porque queria me divertir", diz a artista, que concedeu entrevista ao Estado, em São Paulo, um dia antes de viajar para Kassel.

Divertir-se significa escrever um poema, Eu Sou Eu, em que Anna Maria mistura seus escritos a apropriações de trechos de O Alienista, de Machado de Assis, e de Reino dos Bichos e dos Animais É o Meu Nome, de Stella Patrocínio - interna do mesmo hospital de Arthur Bispo do Rosário. Eu Sou Eu é declamado pela artista, em português, por meio de uma gravação instalada no porão da casa (e a obra transformou-se também num pequeno livro, vendido na mostra).

Mas, mais do que a palavra, Anna Maria ocupa todos os cômodos do térreo com uma instalação com peças de argila, de sua série Terra Modelada, em que nos coloca o gesto primordial da mão. As esculturas tomam sofás, cama, cadeiras, beirais das janelas, criando uma imagem de acúmulo de formas. E apresenta a criação de um trabalho sonoro (em parceria com Tânia Pifer, Sandra Lessa e Mateus Pires), que faz reverberar sons da fauna brasileira, com ecos para o jardim e o bosque.

Trabalhando o espaço interior e exterior, Anna Maiolino concebe uma obra que inspira ares surrealistas. "As linguagens do inconsciente e da intersubjetividade enunciam o etéreo no espaço." Galhos de pinho, misturados a sons, ainda "impregnam o sótão da casa" como parte da riqueza de operações simbólicas criadas pela artista.

Em 2010, ela foi convidada pela curadora e escritora ítalo-americana Carolyn Christov-Bakargiev, diretora artística da Documenta 13, a participar da exposição. A mostra alemã, realizada a cada cinco anos, tem a tradição de manter segredo sobre seus participantes, mas, desta vez, uma lista foi publicada há poucas semanas na imprensa alemã. Os organizadores da Documenta 13 - sob o título The dance was very frenetic, lively, rattling, clanging, rolling, contorted and lasted for a long time - não a confirmaram. O anúncio oficial dos participantes ocorreria hoje em Kassel.

Anna Maria Maiolino, que nasceu na Itália, em 1942, viveu na Venezuela nos anos 1950 e radicou-se no Brasil na década de 1960, é uma das representantes do País - outras criadoras brasileiras já confirmadas são Renata Lucas, Maria Martins e Maria Thereza Alves.

Vivendo mais um momento especial de sua consagrada carreira, Anna Maria, que acaba de ganhar o 1.º Prêmio Masp, fala na entrevista a seguir sobre sua participação na Documenta 13.

Como se deu o convite para a Documenta 13?

A curadora-chefe da Documenta veio ao Brasil há dois anos. Ela havia me convidado antes para a Bienal de Sydney (de 2008), com o filme In-Out, Antropofagia, histórico, de 1973. Carolyn sugeriu então uma instalação de argila da série Terra Modelada para a Documenta. Disse "tudo bem", mas com 50 anos de trabalho é desagradável para o artista maduro o convite de uma obra histórica. Ao mesmo tempo que é um elogio, você quer fazer algo novo. A instalação de argila é uma série, uma obra aberta em que uso quatro formas básicas da mão. Ela se modifica dependendo do espaço, mas a base é a presença do gasto energético e da ação básica do gesto.

Como foi o diálogo com a curadora sobre o conceito da Documenta 13?

Para dizer a verdade, não li a proposta. Fui atrás da minha fantasia, do meu delírio. Os artistas não precisam se adequar a formas. Mas não vou fazer só a minha instalação de argila, com a questão da mão laboriosa, dos primórdios até hoje. Carolyn me disse que a instalação de argila é uma expressão humana. Eu disse tudo bem, mas sou uma artista. Levei em conta o que ela me pediu. Fui a Kassel, que não conhecia, em 2010. A curadora pediu que eu escolhesse um espaço para minha obra, não me levou ao museu (Fridericianum, sede da Documenta), então, entendi que ela queria que eu escolhesse um espaço alternativo da cidade. Voltei e fiquei pensando. Fiz um livro para a minha instalação, Eu Sou Eu, como resumo de pequenas poesias e pensamento.

Como é sua obra?

O nome do meu projeto é Here & There. No livro, aproprio-me de um trecho de O Alienista e outro de Stella Patrocínio, mas não estou falando da loucura no sentido negativo, e sim de sentido criativo. A obra tem uma multiplicidade. Tem o livro, tem o som, é uma obra que ocupa três andares de uma casa, mas que só é definida com a minha presença.

É uma obra de palavra, som e o gesto da mão?

No primeiro andar, tem a argila, o ente operante. No sótão, está a memória encontrada. E no porão, o corpo ausente. Here & There se divide em três itens. Quis levar um pouco da vitalidade brasileira.

A senhora teve liberdade total para ampliar seu projeto. A casa também foi sua escolha?

Sim. Quando escolhi a casa, a curadora me disse que do outro lado moravam os irmãos Grimm, que escreveram contos incríveis. Escolhi a casa para me refugiar às margens do parque. É típica alemã e é onde construo minha fábula e poética, e é, inconscientemente, um refúgio. Kassel, inevitavelmente, remete à guerra. Acho que a Documenta também foi feita para sanar a memória da cidade. Levo sons da fauna brasileira, algo de sol, alegria, esperança. Mas só me dei conta quando terminei o projeto. Falo da morte também, o poema é paradoxal, a vida é paradoxal. A obra de arte vive na dualidade, mas quando fala de insanidade, transforma essas situações para a vida, como que resgata para a vida. É ocupação da memória, com uso de mídias diferentes.

E sobre o título Aqui & Lá?

São dois advérbios de lugar só para indicar a obra. São muitos lugares que estou ocupando. Sou filha da guerra também. Sinto-me como (o poema) Banquete Antropofágico (escrito por ela), sou brasileira, mas com sotaque diferente.

Como é participar da Documenta? Vê sentido nessas mostras?

Vejo sentido em exposições grandes, coletivas. Nunca vi uma Documenta, todos dizem que chegar lá é o reconhecimento de que se é competente. Não acho isso. Vejo a arte como a máxima expressão do ser humano em sua humanidade. Fiquei contente, mas não estou eufórica. Quando quis ampliar meu projeto ou criar um projeto de multiplicidade de sentimentos e sentidos foi porque quero me divertir. É uma experimentação. Tenho mais de 13 filmes, mas não sou cineasta. Trabalho com fotografia, mas não sou fotógrafa. A curiosidade que move o desejo de poesia. Quando se muda de mídia, você entra no risco. Posso dizer que me diverti muito.

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