Brasileira e universal

Montagem de A Valquíria no Municipal propõe diálogo estimulante entre Wagner e a cultura brasileira

O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2011 | 03h05

As óperas de Richard Wagner são um caso à parte no repertório operístico. Não são necessariamente mais populares do que suas primas italianas ou francesas. Mas, quando sobem ao palco, títulos como Tristão e Isolda ou O Anel do Nibelungo movimentam expectativa que extravasa o universo da ópera, ainda mais quando ficam tanto tempo longe de um palco, como aconteceu com A Valquíria, segunda parte do Anel, que voltou na noite de quinta ao Teatro Municipal, após mais de 50 anos.

Em sua complexidade e tamanho - quatro óperas em um total de quase 16 horas de música - o Anel é parte indiscutível da tradição cultural do Ocidente: bebeu em fontes como as sagas mitológicas e o pensamento de Schopenhauer, motivou textos de autores como Nietzsche e Bernard Shaw, misturou-se à história com a apropriação que sofreu do Terceiro Reich. Por tudo isso, estabelecer uma produção que respeite o original e ao mesmo tempo o reapresente de maneira viva e significativa para nossa cultura é um enorme desafio, vencido pelo diretor André-Heller Lopes e sua equipe, em uma Valquíria brasileira e, ao mesmo tempo, universal.

Na concepção de Heller-Lopes, o primeiro ato se passa em um apartamento da classe média urbana e o terceiro, em um campo no qual a cavalgada das valquírias evoca as Cavalhadas, recriação abrasileirada das batalhas medievais realizada anualmente em Pirenópolis, no interior de Goiás. Em ambos os momentos está sugerido o diálogo da tradição europeia com a cultura brasileira, mas é o segundo ato, no qual a entrada do Valhala, a terra dos deuses, transforma-se em uma sala de ex-votos de Aparecida do Norte, que oferece o eixo fundamental da dramaturgia do diretor.

Ao trabalhar sobre personagens e temas da mitologia, Wagner investiga a relação do homem com o poder, com Deus, consigo mesmo. Tudo aquilo que o anel oferece a quem o controla, diz o diretor, é menos importante do que a maldição que ele carrega. O poder, então, se opõe ao sentimento. E está estabelecido assim o diálogo com o sincretismo do povo brasileiro, em uma sala de ex-votos que evocam ao mesmo tempo a crença cristã, a fé em Deus - e o paganismo que a relativiza. Assim, o diretor parte do universo de Wagner ara repensá-lo à luz de uma outra cultura, em um espetáculo eficiente tanto em termos simbólicos quanto narrativos, ponto alto da programação dos últimos anos.

Vocalmente, a Valquíria do Municipal teve um elenco homogêneo e de alto nível: o Siegmund comovente de Martin Müehle; a Sieglinde frágil de Lee Bisset; a intensidade da Fricka de Denise de Freitas; o Hunding autoritário de Gregory Reinhart; o Wotan sensível e inteligente musicalmente de Stefan Heidemann; a Brunhilde eficiente de Janice Baird; as oito valquírias, com destaque para Keila de Moraes, Adriana Clis e Lidia Schaeffer. O ponto alto, no entanto, foi a regência de Luiz Fernando Malheiro que, após um primeiro ato um pouco frio, estabeleceu narrativa de enorme intensidade dramática, atenta a momentos-chave do discurso musical, como o monólogo de Wotan no segundo ato, o dueto de Brunhilde e Siegmund ou a cena final, a música do adeus e do fogo mágico.

A pergunta, agora, é se esta Valquíria credencia o Municipal para um Anel completo, a ser realizado a partir do ano que vem. Cenicamente, seria estimulante ver o diretor André Heller-Lopes desenvolver o conceito aqui apresentado nas demais óperas do ciclo. Em termos musicais, um desempenho menos errático da Sinfônica Municipal seria desejável. Talentos individuais, no entanto, sobram na orquestra - e, nesse sentido, um Anel poderia simbolizar, enfim, o comprometimento artístico com um projeto a longo prazo que tanta falta tem feito ao Teatro Municipal.

Crítica:

João Luiz Sampaio

JJJJ ÓTIMO

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