Brasil Telecom patrocina 102 projetos em 2001

Ficou faltando só Fernanda Montenegro. Se a Dora de Central do Brasil estivesse lá, seriam três damas do teatro brasileiro. Na ausência da grande Fernanda, Bibi Ferreira e Nathália Timberg compareceram ao salão de convenções do Hotel Sofitel, em plena Avenida Atlântica, para o anúncio oficial dos patrocínios da Brasil Telecom neste ano. Foi na terça-feira de manhã e o evento reuniu muitos dos artistas que terão o patrocínio da empresa. O patrocínio, não. A palavra mais ouvida naquele salão foi ´parceria´.Desde que se estabeleceu no País, a Telecom tem procurado marcar sua presença integrando-se à vida brasileira. Não é por acaso que seu slogan é: "A tecnologia próxima de você." Uma maneira importante de fazer essa ponte é por meio de iniciativas culturais. A presidente da Brasil Telecom, Carla Cico, pode falar um português com sotaque italiano, pois afinal de contas a Brasil Telecom é produto desse novo mundo globalizado. Mas ela fala com entusiasmo sobre o objetivo do programa de patrocínios da empresa, que é integrar o nacional e o regional.Em primeiro lugar, o que é a Brasil Telecom. É uma das maiores empresas de telecomunições do País. Controla dez operadoras que atuam no Acre, em Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Distrito Federal, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Em cada uma das regiões atendidas pela Brasil Telecom, ela vai ligar seu nome ao patrocínio de projetos locais. No total, vai investir em 102 projetos culturais neste ano, investindo R$ 20 milhões. Em âmbito nacional, serão contemplados 24 projetos, que receberão R$ 10 milhões. Os outros R$ 10 milhões serão divididos em 78 projetos regionais. E todos, os nacionais e os regionais, vão contemplar principalmente as áreas de teatro, dança, cinema e artes plásticas.Carla Cico explica que o objetivo é integrar. Assim, a empresa vai promover o Circuito Telecom de Dança, no Rio e em São Paulo, com as companhias de maior destaque que patrocina pelo País. E vai levar esses grupos de dança às capitais dos principais Estados em que atua. Inversamente, em todas as áreas de atuação cultural da Brasil Telecom, os grupos regionais serão chamados a mostrar sua produção em outros Estados, incluindo, claro, o eixo Rio-São Paulo, que concentra as principais atrações culturais do Brasil. A idéia não é só investir em nomes consagrados, mas também em talentos emergentes. Por isso mesmo, há um grupo de estudo permanente que avalia as propostas encaminhadas à Brasil Telecom em busca de patrocínio.Bibi e Nathália - Fernandona, a grande ausente na terça-feira, é um dos nomes fortes da modalidade teatro, patrocinada pela Brasil Telecom. A peça é Alta Sociedade, com texto e direção de Mauro Rasi, na qual Fernanda Montenegro vai dividir a cena com Ítalo Rossi, seu parceiro desde os tempos do Teatro dos Sete. As outras damas, que marcaram presença na coletiva seguida de brunch, são Bibi e Nathália. O nome do espetáculo de Bibi já diz tudo do que se trata: Bibi Ferreira Canta Amália Rodrigues, com direção de Thiago Torres da Silva. Estréia no começo de junho, no Rio, e depois vai a Portugal. Bibi, que já cantou (até em Paris) Edith Piaf, agora volta-se para a grande fadista. Quer resgatar não só o sentimento e a musicalidade de Amália Rodrigues, mas também a excepcional poetisa que ela foi.Nathália também agradeceu à Brasil Telecom o investimento que está fazendo em Conduzindo Miss Daisy. Sim, é a peça que deu origem ao filme famoso que deu o Oscar a Jessica Tandy. Nathália vai fazer a dama sulista que atravessa quase 30 anos relacionando-se com seu motorista negro, personagem que Morgan Freeman interpretava no filme de Bruce Beresford, também vencedor do Oscar (o filme, não o diretor). No Brasil, o papel será representado por Milton Gonçalves. Nathália seguiu as palavras de Bibi e ambas destacaram que sem parcerias como a da Brasil Telecom é inviável fazer cultura no País.Domingos de Oliveira, também contemplado - na modalidade teatro, por um espetáculo sugestivamente chamado de Cabaret Filosófico - O Definitivo, que terá texto e direção dele mesmo -, lembrou que a arte é a mãe da ética e sem ela não se pode construir uma sociedade democrática, igualitária e justa. Foi muito aplaudido. Entre os demais investimentos em teatro estão: Woyzeck, de Büchner, adaptado por Matheus Nachtergaele, Cibele Forjaz e Marcos Pedroso - Nachtergale há tempos queria trazer para os palcos brasileiros o texto do autor expressionista, por reconhecer que, nele, a estrutura que massacra o indivíduo tem tudo a ver com o mundo no qual se vive hoje -; O Príncipe de Copacabana, de Gerald Thomas, com interpretação de Reynaldo Giannechini; Meu Destino É Pecar, de Nélson Rodrigues, dirigida por Enrique Diaz, com a Cia. dos Atores; e a parceria com a Casa da Gávea, para a produção de Entre o Céu e o Inferno/As Barcas de Gil Vicente, adaptação de Cristina Pereira, e O Homem Que Viu o Disco Voador.Em nome da Casa da Gávea, Paulo Betti destacou que a parceria não diz respeito só ao patrocínio dessas peças, mas à conservação do próprio espaço. "A fachada da nossa casa está baleada e é importante que fique assim até como símbolo da nossa dificuldade de fazer cultura, que seria pior sem empresas como a Brasil Telecom, na qual encontramos diálogo." Foi o que destacou a maioria dos artistas. A Brasil Telecom ouve, dialoga, avalia. E desta maneira cria o comprometimento. Os investimentos culturais da empresa vêm crescendo a cada ano: em 1999, foram R$ 6 milhões; no ano passado, R$ 13 milhões e, este ano, R$ 20 milhões. Parte desse dinheiro sai do Imposto de Renda devido, por meio das leis de incentivo cultural, como a do Audiovisual, mas parte do dinheiro sai do orçamento da Brasil Telecom.Isso levou Carla Camurati e Paulo Betti a romper um pouco com as críticas generalizadas ao tradicional descaso dos governantes com a cultura. Carla e Betti lembraram que sem as leis de incentivo do Governo Federal o cinema brasileiro não teria ressurgido, por exemplo. Ela tem apoio da Brasil Telecom para o seu novo projeto, do qual nada adianta - "Sou o cão de supersticiosa e só falo depois de fechar os acordos estrangeiros" -, exceto que se trata de uma peça conhecida que vai adaptar para o cinema. Outros investimentos no audiovisual incluem dois documentários de João Moreira Salles, indicado para o Prêmio Multicultural 2001 Estadão Cultura (Durante o Processo e Tempo Imenso) e a série de 14 documentários Primeiras Damas, a ser veiculada na GNT, com coordenação geral de Luís Fernando Carvalho e na qual Eduardo Tolentino, do Grupo Tapa, é um dos diretores. A Brasil Telecom libera seus investimentos culturais em duas etapas, exceto na modalidade cinema. Com a Videofilmes, parceira no documentário de João, o investimento será parcelado até 12 vezes.

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