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'Brasil S/A' é um retrato irônico do feroz capitalismo da sociedade nacional 

A distopia do capitalismo à brasileira parece meio fora do radar das mentes que brilham. A discussão mais urgente, resumida a como retomar o crescimento econômico, evita discutir sequelas possíveis, tidas como subprodutos inevitáveis do processo de desenvolvimento. Nesse ambiente intelectualmente estreito, cabe a um filme pernambucano retomar essa questão de fundo. Trata-se de Brasil S/A, de Marcelo Pedroso, que propõe sua análise sob forma inusitada. 

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2016 | 05h00

Diferentemente de um discurso racional de conjuntura, vale-se apenas de imagens e sons em sua construção. Desse modo, vemos máquinas substituindo homens nas lavouras e inchando as cidades de migrantes desempregados. Ao lado deles, figurantes de maracatus dançam valsas e minuetos, farsa de uma aculturação selvagem. Os prédios engolem as casas, sobem e acabam com a paisagem, fenômeno bastante visível no Recife, mas que reproduz, em escala, o que acontece em metrópoles do País inteiro. Prédios crescem, carros entopem as ruas e expulsam os pedestres. 

Pedroso não economiza nas metáforas. Uma modelo de biquíni rege a dança de escavadeiras, enquanto a bandeira nacional, com um buraco no meio, em lugar do clássico positivista “Ordem e Progresso”, plana das alturas sobre um mar de edifícios de 40 andares. Os carros ocupam tanto espaço que precisam ser rebocados por caminhões-cegonha especializados.

Qualquer brasileiro morador de cidade grande reconhecerá a graça dessa alegoria de um desenvolvimento que perdeu seu rumo e não faz qualquer esforço para corrigi-lo. O assunto é antigo, mas, do ponto de vista conceitual, Pedroso se diferencia de antecessores que propunham diagnósticos mais claros. É evidente o diálogo com obra de outra natureza, como o clássico São Paulo Sociedade Anônima, de Luis Sérgio Person, que via a deterioração da cidade paralela à instalação da afluente indústria automobilística. Naquele tempo, anos 1960, era mais fácil falar em “alienação” e dar corpo ao conceito num personagem como Carlos, de Walmor Chagas. Hoje, os diagnósticos parecem miragens, para não falar dos tratamentos. Desse modo, o filme propõe-se apenas a deslocar significados e, por efeito de perplexidade, colocar o espectador em estado de reflexão. 

Nesse tom de alegoria, quando não de paródia, se buscam efeitos cômicos e emocionais. Podemos rir do progresso que transforma felizes proprietários em prisioneiros de suas gaiolas douradas. Ou do feliz motorista individual, que não consegue se mover ao volante de sua propriedade sobre rodas. Todos nos reconhecemos nisso. E ainda assim acreditamos que os males do desenvolvimento serão curados com mais desenvolvimento ainda, o que se trata de um ato de fé como outro qualquer. 

A virtude de um filme como Brasil S/A é nos colocar em cheio no paradoxo desse tipo de caminho. O diretor não finge conhecer alternativas. Talvez não haja, ou soem como utópicas demais para serem levadas em conta, desde que alternativas ao capitalismo foram banidas do mainstream mental pelo processo histórico. Brasil S/A não brada diretamente que “outro mundo é possível”. Dedica-se à feroz redução ao absurdo desse mundo “que aí está”. Esse é seu alcance. E também sua limitação. 

 

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