Brasil reverencia Jorge Amado

No Rio, o escritor João Ubaldo Ribeiro lamentou a morte do escritor Jorge Amado que para ele foi muito mais do que um mestre "um grandioso e queridíssimo amigo". Em Campinas, dois professores da Unicamp defenderam posições antagônicas sobre sua obra, mantendo a polaridade que marcou a crítica literária em relação ao escritor. Para Marisa Lajolo, ele merecia o Prêmio Nobel de Literatura. Já o professor Paulo Franchetti disse que ele não passava de um bom cronista. Em Brasília, o senador José Sarney emocionou-se ao receber a notícia da morte de Jorge Amado e o presidente do STF Marco Aurélio Melo declarou que ele foi o maior embaixador da cultura brasileira no século 20. Leia mais comentários de Tarcísio Padilha, Nélida Piñon, José Wilker, Antônio Olinto, Arnaldo Niskier.João Ubaldo Ribeiro - O escritor João Ubaldo Ribeiro, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), levou um susto ao saber do falecimento de Jorge Amado, seu amigo há 30 anos. O imortal estava participando do lançamento do livro do presidente da Assembléia Legislativa, Sérgio Cabral Filho, na Casa Rui Barbosa, em Botafogo, Zona Sul do Rio. Neste momento, o escritor está em casa, tentando vaga num vôo para Salvador. "Estou estupefato. É uma coisa terrível. A gente sabe que a morte é a lei natural das coisas, mas isso não serve de consolo", disse. Para João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado foi muito mais do que um mestre. "Um grandioso e queridíssimo amigo", disse, muito abalado. Marisa Lajolo - A professora do Instituto dos Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Marisa Lajolo classificou a morte de Jorge Amado como a maior perda possível para a cultura brasileira. Segundo ela, o escritor baiano ensinou o povo brasileiro a ler literatura brasileira. "Ao ler uma obra dele, parece que estamos sentados ao lado dele no cais".Para ela, Jorge Amado merecia um Prêmio Nobel de Literatura por sua importância para a cultura nacional e por apresentá-la ao mundo. Mas disse acreditar que o escritor não foi homenageado com porque o Nobel é também um prêmio político. "É preciso articulação política na área", ponderou. A professora reconheceu que parte da crítica sempre tratou Jorge Amado como um autor com deficiências, mas afirmou que se trata de um equívoco. "Escritos populares sempre provocam desprezo da crítica", defendeu.Paulo Franchetti - Para o professor Paulo Franchetti, também do IEL, Jorge Amado era um escritor de recursos limitados, mas de grande apelo popular. "Oswald de Andrade dizia que ele escrevia romances muralistas, porque construía murais em suas obras", disse. Segundo Franchetti, Jorge Amado produziu romances políticos pouco expressivos e os romances "muralistas" compõem o melhor de seu trabalho. "Ele era um cronista de costumes e traçou tipos fortes na literatura, como Gabriela Cravo e Canela. Dava muita importância à sensualidade em sua obra. Era um criador de cenários. Mas não vai além de um bom cronista", alegou Franchetti.José Sarney - Senador, ex-presidente e membro da Academia Brasileira de Letras - emocionou-se: "Acabo de saber e ainda não tenho condições de me recompor. É com grande comoção que recebo a notícia dessa perda. Jorge era um referencial de inteligência que conseguiu fazer uma obra extraordinária e difícil de poder se igualar. Ele teve oportunidade de trabalhar uma obra baseada nas raízes do povo brasileiro, retratando a alma do povo mais simples. Foi o maior escritor da história de nosso País e era uma referência ao mundo inteiro. Além disso não se pode deixar de ressaltar a grande figura humana, o amigo, o companheiro, uma figura que se tornava íntima do povo brasileiro com sua obra. Jorge criou mundos, eternizou emoções, sentimentos. Convivi com ele por quase 50 anos e dificilmente vou me libertar daquele sentimento de irmandade que ultrapassa o sangue. Estive com ele há um mês e agora me lembro, que olhando nos olhos dele não sabia que era a última vez que o veria."Marco Aurélio Mello - Em Brasília, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Marco Aurélio Mello, ao comentar a morte do escritor Jorge Amado, declarou que ele foi "o romancista que mais divulgou a alma do povo brasileiro, revelando com tintas fortes as desigualdades sociais, tendo sido, no século 20, o maior embaixador da cultura brasileira."Tarcísio Padilha - Presidente da Academia Brasileira de Letras: "A morte de Jorge Amado é uma perda para a literatura e para o País. Ele foi o primeiro a exportar nossas letras e traduzia a alegria do nosso povo. Através dele, aprendemos que o povo sofrido dos Alagados sabe sorrir. Ele era o próprio povo. Para substituí-lo, só um gigante, que apareçam."Nélida Piñon - Escritora e acadêmica: "Acho que ele conseguiu criar um território ficcional rico e representativo do imaginário brasileiro. Ele casou a perfeição da sua imaginação com os anseios narrativos do nosso País. Um grande romancista brasileiro e um homem de extrema generosidade. Soube amar, como poucos, o povo brasileiro."Antônio Olinto - Escritor e acadêmico: "Ele revelou um Brasil novo, rediscobriu o Brasil mestiço da mistura de raças e transformou tudo isso em uma obra extraordinária, que levou para o resto do mundo. Foi traduzido em 58 países. Era um homem muito generoso, aberto, sem vaidade. Ele tinha alegria de viver, uma característica bem brasileira e baiana. Ele ensinou ao mundo que o Brasil tem algo mais."José Wilker - O ator (que viveu Mundinho Falcão, na novela Gabriela, e Vadinho, no filme Dona Flor e Seus Dois Maridos): "A coisa mais difícil é dar um depoimento assim. A única coisa que eu posso dizer é que o Brasil perdeu uma pessoa com extraordinário senso de humor, capaz de rir de tudo, por todas as razões do mundo. Deve ter morrido rindo."Josué Montello - Escritor e acadêmico: "Ele foi o maior escritor da minha geração. Era uma totalidade, um homem político literato, representava seu grupo. O que nos consola é a releitura da obra dele, que não se alienava do que escrevia, de seu pensamento político. Representava seu papel esplendidamente."Arnaldo Niskier - Escritor, jornalista e acadêmico: "É uma notícia tristíssima. Foi a pessoa que botou o Brasil lá fora antes mesmo do Pelé. Se o Pelé foi o rei da bola, o Jorge foi o nosso rei da literatura. Eu, como fã incondicional e amigo, fico triste porque ele não recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. A Academia indicou o nome dele várias vezes. Mas para nós brasileiros, Jorge Amado é Prêmio Nobel e está acabado. Se hoje ele alcança a verdadeira imortalidade, ele vai com esse título."

Agencia Estado,

06 de agosto de 2001 | 23h21

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