Brasil ou Argentina?

Sou patriota, escreveu minha amiga Jô. Mas se o time de Dunga tropeçar nesta copa do mundo, vou torcer pela seleção argentina. Mordi os lábios de inveja depois de ter assistido aos jogos da Argentina. Sangrei meus lábios de tanta raiva enquanto via Brasil x Coreia do Norte. É verdade que a nossa seleção ficou mais solta e ofensiva contra a Costa do Marfim, mas não me convenceu cem por cento, nem mesmo 80, porque derrotou uma seleção fraca, decepcionante e desleal.

Milton Hatoun, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2010 | 00h00

Não me interessa ver Maradona pelado ou de terno e gravata. O baixinho foi um grande jogador. Não é comparável a Pelé, o maior craque de todos os tempos. Maradona é um argentino e isso lhe dá ares superlativos. No monte Olimpo só há lugar para argentinos, você sabe. O Olimpo é argentino. Mas não é do delírio de grandeza que quero falar. Maradona está mostrando ao mundo que é um técnico competente. Competência significa também risco, ousadia, imaginação.

Você está em São Paulo; eu, voando na África do Sul. Você acompanha os jogos pela televisão, por isso não sabe o que é ver a seleção de Messi em campo. A Argentina é uma máquina, uma orquestra, mas uma máquina e uma orquestra com técnica, garra, vibração. Não sou santista, mas quando vi a Argentina jogar, só me lembrava dos meninos da Vila, me lembrava do futebol verdadeiro, o futebol que combina arte e técnica, agilidade e sutileza, criatividade e visão de jogo. A Nigéria foi esforçada, a Argentina foi convincente, espetacular. Messi é sutil, inteligentemente sutil. Por distração ou pudor, ele perdeu dois ou três gols. Mas provou que é um deus em campo; um deus argentino, por supuesto. Não pense que há ironia no que acabo de escrever. Se há ironia ? uma amarga ironia ? é na seleção de Dunga. Se ele só cometesse erros quando fala português, vá lá. Nenhum técnico precisa falar como um filólogo ou lexicógrafo. Não sou uma purista da língua. Dunga comete erros mais graves e de outra natureza. Falta ousadia e sobra teimosia ao nosso técnico, cuja tática defensiva e feia traduz algo profundo, um temperamento travado. Quando ele ri, é um riso de boneco de gelo, de abominável homem da neve num país tropical. Dunga parece uma estátua de cera. Nem mesmo a vitória fenomenal da Argentina contra a Coreia do Sul serviu de lição ao nosso técnico. Eu pensava que essa vitória ia ferir os brios de Dunga. Ou torná-lo mais humilde. Às vezes a humildade nos ensina a ver nossos próprios erros. Mas não. Dunga insiste em usar um esquema defensivo, europeu. Olhe as promissoras seleções africanas dirigidas por técnicos europeus. São verdadeiros fiascos. Olhe para as próprias seleções da Europa. O que fez até agora a prodigiosa seleção da Espanha? Que lamentável, triste e desastroso o desempenho da seleção francesa. E o que dizer da Inglaterra? Talvez a Alemanha, por sua força, tradição, qualidade e boa forma física seja a única exceção. A Holanda é um mistério, não sei se irá muito longe. Portugal desencantou e massacrou a Coreia do Norte. Talvez o jogo contra Portugal seja o batismo de fogo da nossa seleção.

Agora, repare nas seleções do Uruguai e da Argentina. Nós ignoramos o futebol dos nossos vizinhos sul-americanos: passes precisos, deslocamentos rápidos e dribles desconcertantes. Criatividade e inteligência. E o que vimos nesses jogos do Brasil? Uma seleção que quer imitar o esquema tático europeu: força e defesa máximas, criatividade e poder ofensivo apenas medianos. Será que estou exagerando? Sei que você acha que vamos chegar à final. Aos trancos e barrancos. Eu tenho dúvidas. E por via das dúvidas, já tenho uma camisa argentina. Aliás, foi um presente de uma colega portenha, que me disse: me encanta Brasil. Não sei se ela se referia à seleção ou ao país.

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