Brasil leva ABC do Design à China

Ilustradores e designers do País viajam para ajudar a formar profissionais chineses

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2011 | 00h00

Xangai está a 18,6 mil km de São Paulo, mas é lá que ocorrerá a 1.ª Ilustra Brasil fora do País, em um movimento que segue os passos da Bienal Brasileira de Design Gráfico, que também fez o seu début internacional na cidade chinesa, em 2009, onde foi vista por 190 mil pessoas.

A travessia da obra de ilustradores e designers brasileiros para o outro lado do mundo é comandada pelo carioca Bruno Porto, que navega nas duas artes e atracou em Xangai em 2006, para dar aula de tipografia no Raffles Design Institute, convidado por outro compatriota que continua em terras chinesas, o pernambucano Itamar Medeiros.

Nos últimos quatro anos, Porto deu aula para cerca de 5.000 alunos, que penaram para aprender a arte da tipografia em letras latinas, tão distintas dos caracteres da escrita chinesa. "Sem o domínio da tipografia, o design gráfico chinês não conseguirá dialogar com o mundo", diz Porto.

Fora da academia, ele se tornou um agitador cultural, com a realização de exposições que promovem o design gráfico brasileiro na China. A mais recente - Dois Anos em Cartazes, que está na The Foundry Gallery em Xangai -, reúne trabalhos do próprio Porto, que acabam sendo uma narrativa das atividades relacionadas à cultura nacional realizadas na China e região, como a Semana de Cinema Brasileiro no Vietnã.

"O Brasil ainda é uma incógnita para os chineses e os escritórios brasileiros de design gráfico não têm um olhar para o exterior, para a exportação desse serviço", lembra ele.

Itamar Medeiros foi o pioneiro na trajetória de designers gráficos brasileiros que atravessaram o mundo para ajudar a criar profissionais chineses nessa área. Em 2005, foi contratado pelo Raffles de Xangai para dar aulas de design de interação, no Departamento de Multimídia.

No ano seguinte, ele convidou Porto e Billy Bacon para integrarem a equipe de professores. Bacon voltou ao Brasil um ano e meio mais tarde e, em 2008, a designer brasileira Sarah Stutz chegou à instituição, por indicação de Porto.

Hoje, nenhum deles está na academia. Depois de criar a comunicação visual do 1.º Festival de Música Eletrônica da China, que ocorreu no início do mês, Sarah começou a contagem regressiva para voltar ao Brasil. Porto tirou um ano sabático para se dedicar a projetos pessoais e Medeiros trocou a academia pela empresa de software Autodesk, onde dirige o setor de experiência do usuário do AutoCAD, o programa mais usado no mundo por arquitetos e engenheiros.

Os três afirmam que a China tem um longo caminho a percorrer no desenvolvimento de design gráfico e apontam a falta de criatividade como a principal deficiência do país. "A educação aqui é como a do Brasil há 50 anos. O melhor aluno é o que consegue reproduzir na prova exatamente o que o professor falou. Há um desestímulo ao pensamento criativo", observa Medeiros, que é representante em Xangai da Interaction Design Association (IxDA).

Sarah aponta uma dificuldade adicional, que é o fato de o design gráfico ter sido formado a partir da história da arte e de vanguardas ocidentais, que até pouco tempo eram totalmente alheias aos chineses. "Ainda não existe o design gráfico chinês. Eles precisam criar essa identidade para poder aceitar a produção estrangeira."

A primeira mostra que apresentou o design brasileiro em Xangai foi o Dingbats Brasil, em 2009 sob a curadoria de Bruno Porto, com uma segunda edição em 2010. Na seleção das obras, Porto elegeu as que eram representativas da cultura brasileira, como uma série inspirada no movimento Mangue Beat e outra com referências ao folclore popular.

No mesmo ano, a Bienal Brasileira de Design Gráfico viajou pela primeira vez à China com 238 projetos de 100 profissionais.

A ilustração tupiniquim será apresentada aos chineses em agosto, no Ilustra Brazil (com z), uma versão internacional do evento que há sete anos é organizado pela Sociedade de Ilustradores Brasileiros. "Vamos trazer ilustrações brasileiras sobre o Brasil", reforça Porto. Serão 100 obras, acompanhadas de palestras e workshops com o cartunista Orlando Pedroso e o ilustrador Marcelo Martinez. Também haverá exibição de animações, desenhos, vinhetas e comerciais.

A ideia agora não é só mostrar, mas também vender a arte brasileira. Para isso, será realizado um seminário de negócios com potenciais compradores, como editores e representantes de jornais e revistas. "Queremos sensibilizar o mercado chinês para a ilustração brasileira", acrescenta Porto.

QUEM É

BRUNO PORTO

DESIGNER GRÁFICO

Nascido no Rio, em 18 de julho de 1971, é formado em Design Gráfico e pós-graduado em Gestão Empresarial/Marketing, tendo estudado também na School of Visual rts, em Nova York. Ele colaborou na criação do livro Asian Graphics Now!, organizado pelo também brasileiro Julius Wiedemann, que reúne os melhores trabalhos de países do continente, como China, Japão, Coreia, Índia, Tailândia e Vietnã, entre outros. Ganhou vários prêmios com seus projetos de design e ilustração.

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