Janette Beckman/Divulgação
Janette Beckman/Divulgação

Brasil Guitar Duo estreia concerto com a Osesp

O programa do fim de semana da orquestra inclui peças de Gioacchino Rossini e Ottorino Respighi

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO,

13 Junho 2012 | 03h11

Um marco na música de concerto brasileira. É com essa expressão de entusiasmo que Brasil Guitar Duo, formado pelos violonistas João Luiz e Douglas Lora, executa uma peça inédita de Paulo Bellinati, com estreia mundial amanhã, na Sala São Paulo com a Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), sob regência do maestro italiano Giancarlo Guerrero. "Ter uma obra desse porte no repertório brasileiro é uma aquisição sem par", diz João Luiz. "Existem poucos grandes concertos para dois violões e este, sem dúvida, vai deixar uma grande marca."

O caráter inovador desse Concerto Para Dois Violões e Orquestra, composto e arranjado por Bellinati, está "na distribuição da forma", ou seja, na adequação da orquestra à delicadeza sonora dos violões: eles vêm em primeiro plano e a orquestra entra em intensidade reduzida. "O violão é um instrumento que sofre certa desvantagem na questão de projeção sonora. Isso fica muito evidente quando acompanhado por uma orquestra ou dentro de um conjunto de câmara maior", lembra Douglas.

"No caso de um concerto, em que o instrumento solista deve ter mais destaque em muitos momentos, é fundamental o conhecimento pleno de seus recursos e limitações. Bellinati dispensa apresentações e comentários sobre o seu domínio e inteligência na escrita para violão, e soube melhor do que ninguém equilibrar os instrumentos em relação com a orquestra", diz.

No início de 2011, a partir do convite de Arthur Nestrovski, diretor da Osesp, para João Luiz e Douglas Lora tocarem com a orquestra, eles sugeriram um concerto inédito em vez do repertório tradicional para violões e indicaram Bellinati. Dividido em três movimentos - Toada, Moda de Viola e Ponteado -, o concerto é uma homenagem do compositor paulistano à música caipira de São Paulo, sem, no entanto, ter nada da tradição regionalista.

"Toco bastante viola caipira nos meus discos, queria fazer uma coisa de São Paulo e o que achei mais representativo foi pegar esses violeiros do interior e os ponteados como inspiração. Não que o concerto tenha esse som tradicional. É um concerto com harmonias contemporâneas do jazz brasileiro para ser tocado no mundo inteiro. Fiz pensando nisso, não queria uma coisa engessada", diz Bellinati. Há apenas uma referência "muito de leve" à viola caipira. "O que achei legal é o conceito dos violeiros se desafiarem. Isso me deu a textura do concerto, essa pergunta e resposta intensa que tem na música regional", diz o compositor.

Para ele, trata-se de uma peça rara. "Além de ter poucos concertos para dois violões e orquestra, nesse estilo acho que é quase nenhum. Mesmo o do Radamés Gnattali é muito nos moldes eruditos. O meu não é erudito nem pretende ser. É uma coisa nova para dois violões e orquestra. É uma peça fácil de tocar, bem melódica. E você ouve o Brasil o tempo inteiro", observa.

Embora tenha analisado muitos concertos nesse formato nos cursos que fez e tenha ouvido outros para ter ideia de como encerrar sua criação, Bellinati diz que não seguiu nenhuma receita. "Fiz questão de quebrar todas elas. Não tinha nenhuma referência, o que fez o trabalho ser um pouco mais difícil. Tive muito conflito comigo mesmo, joguei movimentos inteiros fora, mas estou feliz com o resultado. Inventei muitas coisas e elas funcionaram: pingue-pongues no violão, desafios rápidos, um violão acompanha e outro sola a melodia, depois invertem os papéis, há momentos só com os violões, outros só com a orquestra - tem muita dinâmica nesse sentido."

Embaixador do violão. Multi-instrumentista, mestre e compositor dos mais refinados, Bellinati é, como diz João Luiz, "o embaixador do violão brasileiro", com bem-sucedida carreira no exterior. Ao longo de mais de 30 anos de carreira, além de discos autorais mantidos em catálogo nos EUA, outros em dupla com a cantora Mônica Salmaso e o violonista Weber Lopes (com quem continua a tocar e vai gravar um segundo CD), um de seus trabalhos mais marcantes é o de reinterpretação da obra de Garoto.

Integrante do Pau Brasil, gravou recentemente mais um trabalho com o grupo e outro com a também violonista Cristina Azuma. Suas peças integram constantemente o repertório do Brasil Guitar Duo. "As obras de Bellinati são justamente a nossa transição do até então repertório clássico (Bach, Sor, Scarlatti, Tedesco, Granados) que a gente tocava para o repertório brasileiro", aponta João Luiz.

O Duo, que também já tem carreira sólida nos Estados Unidos e Europa desde 2006, deve levar o concerto para mundo. Uma apresentação já está programada para este ano na Carolina do Norte. Em breve eles também o executam como solistas da Orquestra Sinfônica de Taiwan. "Esse vai ser nosso concerto-assinatura, pois une a sofisticação orquestral com a espontaneidade do violão brasileiro, que tanto atrai o público de todo o mundo", diz Douglas.

O programa de amanhã, sexta e sábado da Osesp inclui peças de Gioacchino Rossini e Ottorino Respighi, que a sinfônica também apresenta no domingo às 11 horas, com entrada franca. Amanhã, às 10 horas, haverá ensaio aberto do Concerto Para Dois Violões e Orquestra, de Bellinati, que não será apresentado no domingo.

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