Brasil e Venezuela, um diálogo concreto

Fundação mostra obras do período artístico dos dois países

Elder Ogliari / PORTO ALEGRE, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2010 | 00h00

A Fundação Iberê Camargo exibe um raro diálogo de expoentes do abstracionismo brasileiro e venezuelano na exposição Desenhar no Espaço, com obras selecionadas do acervo da Fundação Cisneros, voltada para o fomento e divulgação das artes latino-americanas em todo o mundo.

Aberta ao público no dia 30 de julho, a mostra fica até 31 de outubro em Porto Alegre e depois segue para Pinacoteca de São Paulo. São 88 pinturas, esculturas e objetos dos brasileiros Willys de Castro, Lygia Clark, Mira Schendel, Hélio Oiticica, Hércules Barsotti e Judith Lauand e dos venezuelanos Alejandro Otero, Gego, Jesús Soto e Carlos Cruz-Diez no período em que o abstracionismo floresceu na América do Sul, entre os anos 40 e 70 do século 20, rompendo com a arte figurativa que dominava a produção local e acompanhando a transformação na sociedade, de rural para urbana, de agrícola para industrial.

"Esse fenômeno fez com que os artistas, ou pelo menos os mais sensíveis àquela realidade, mudassem suas estratégias plásticas, trabalhando fora do plano pictórico", destaca o curador da exposição Ariel Jiménez, que também é curador-chefe da Coleção Patricia Phelps de Cisneros. O abstracionismo deixa de lado a imitação do mundo e passa a explorar linhas, planos e cores, estabelecendo experiência mais direta com o espectador, numa espécie de provocação a diferentes percepções, e tem entre suas variações os movimentos concreto e neoconcreto no Brasil e cinético na Venezuela.

Em Desenhar no Espaço, o curador busca pontos de encontro e de divergências entre abstracionistas brasileiros e venezuelanos. Nos dois países, os artistas buscaram extrapolar limites de planos e corpo material da pintura, impostos pelas telas e molduras como suporte. "Os brasileiros o fizeram em geral priorizando sua presença corporal, mexendo em volumes e na espacialidade das obras", compara Jiménez. "Na Venezuela os artistas concentraram esforços no jogo entre luzes e cores nas telas para garantir tal experiência visual."

Exemplo disso pode ser observado nas obras Radar, de Lygia Clark, um corpo com peso e textura que se oferece ao espectador, e na série Vibración, de Jesús Soto, que explora o fenômeno óptico como espetáculo visual, sem supor a mesma interação com o público, colocadas lado a lado na exposição.

Cores vivas. Na mesma linha das comparações estão as obras dos artistas que Jiménez chama de "coloristas", por explorarem a cor como elemento vivo para evidenciar estruturas, planos e formas. Em obras de Willys de Castro, a cor aparece de maneira maciça e minimalista, nas de Alejandro Otero dá força para a fluidez e o movimento das linhas, nas de Hélio Oiticica destaca relevos e depressões e nas de Carlos Cruz-Diez produz transparências e efeitos de óptica.

O superintendente cultural da Fundação Iberê Camargo, Fábio Coutinho, destaca que a instituição prefere abordagens específicas às mostras individuais. Assim, diz ele, é possível buscar seleções e diálogos como a exposição atual, que considera incomum. "Temos uma oportunidade ímpar de ver uma conversa extremamente harmônica entre Brasil e Venezuela, conforme o recorte de Ariel Jiménez."

O endereço da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, é Avenida Padre Cacique, 2.000.

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