Brasil e Portugal, juntos na história e na ironia

Nas vastas observações sobre o "achamento" da Terra de Vera Cruz, Caminha deixou bem registrado aquilo que ? já naquela época ? melhor definia a alma brasileira: o mitológico "jeitinho". As impressões que mais marcaram os colonizadores sobre os colonizados foi a boa acolhida dos nossos antepassados. "Era já a conversação deles conosco tanta, que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer", escreveu. E eram as índias tão "moças e tão gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas", que se tornou notório o encantamento dos navegadores. Sim, foi um desbunde, e ainda que alguns de nós veja a coisa com exagerado pessimismo, a Mostra de Humor Luso-Brasileiro ? 500 Anos de Brasil esteve em Estoril, Portugal, mostrando quanta coisa engraçada foram descobrir os cartunistas participantes ? sete cá do Brasil, sete lá da terrinha.Fruto inicial da idéia do cartunista português António Antunes e do brasileiro Chico Caruso, a mostra ? com ilustrações sobre o descobrimento e as relações entre os países ? foi organizada pela Fundação Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, e pela Galeria de Arte do Casino Estoril de Portugal. A idealização da exposição também conquistou as Secretarias de Cultura do Estado do Rio e de Portugal. "Foi nossa primeira investida internacional", comemora Marília Trindade Barboza, presidente do MIS. A exposição teve abertura no Casino Estoril dia 13 de maio, com um jantar de comidas típicas brasileiras e uma apresentação do Conjunto Nacional - a banda dos irmãos Chico e Paulo Caruso, com participação do escritor Luís Fernando Veríssimo e do cartunista Aroeira nos saxofones. Figuras ilustres do público brasileiro e português, como o ator José Lewgoy, o comediante Raul Solnado e a cantora Fafá de Belém, também compareceram à festa. O show dos irmãos Caruso ainda contou com uma canja do cartunista pernambucano Laílson, que fez um número da sua banda de blues Papafigo. "Tive que adaptar o nome do personagem, um cantor brasileiro que tenta a carreira em Portugal, de Renisvaldo Pinto para Renisvaldo Picha, por uma questão de língua", brinca o artista.Representando o Brasil, além de Chico, Paulo, Aroeira e Laílson, estiveram também Millôr Fernandes, Jaguar e Ziraldo. Os dois últimos mandaram desenhos mas não viajaram. "Alguém tinha que tomar conta da loja", justificou Ziraldo, referindo-se à revista Bundas, da qual é editor. De Portugal, além de António Antunes, participaram André Carrilho, João Abel Manta, Maia, Vasco, Cid e Cristina Sampaio. Cada cartunista fez uma média de quatro cartuns, 56 no total. A exposição ficará em Estoril até dia 25 de junho, para dia 28 inaugurar no MIS do Rio de Janeiro. Depois ainda deve ir para Recife, São Paulo, Brasília, Salvador, Belo Horizonte (onde vai acontecer paralelamente ao Encontro Internacional de Cartunistas), e em janeiro do ano que vem termina no Porto. "Em 2001, a cidade do Porto vai ser a Capital Cultural da Europa. Vai ser um grande momento das artes na cidade, e a Mostra vai ter um gran finale", prevê Marília. Expectativa - A satisfação de artistas, organizadores e visitantes com a Mostra ficou explícita após os primeiros dias do evento. "A cidade recebeu a exposição muito bem... As pessoas tiveram um carinho muito grande pelo nosso trabalho", diz Paulo Caruso, que elogiou também a conservação histórica e a preocupação turística de Portugal. "Para mim foi como encontrar velhos amigos. Fora isso, a exposição acabou sendo uma forma de compactar de maneira divertida, e não-oficial, os 500 anos do Descobrimento", conta António Antunes. Por isso, é grande a ansiedade de todos para a abertura da mostra no Rio, dia 28 de junho. "Foi uma grande oportunidade de conhecer os cartunistas portugueses que, de um jeito ou de outro, têm mais acesso ao que sai daqui, do que agente do que vem de lá. Por isso, aqui vai ser também muito divertido", comemora Aroeira. António concorda: "talvez seja mais surpreendente ainda no Brasil, já que em Portugal essa retratação ficou muito mais factualizada".Não se sabe ainda quais eventos farão a abertura da exposição no Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras. Mas um caprichado catálogo da exposição, com todas as ilustrações, pequenas biografias de cada um dos artistas, e prefácios do ministro da cultura Francisco Weffort, da presidente do MIS Marília Barboza, e do diretor da Galeria de Arte do Casino Estoril, N. Lima de Carvalho, já anuncia que o evento aqui não será menos privilegiado que o português. "Nós, cartunistas portugueses, já temos presença confirmada no Brasil", adianta António. A expectativa pela vinda da "nau portuguesa" é palpitante. E deverá reforçar o espanto luso sobre essa gente. Em 1º de maio de 1500, assim Caminha finalizava sua carta: "o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar". Mal lidas antes, hoje essas palavras podem ser representadas e vistas nos traços desses grandes cartunistas. No redescobrimento do Brasil, resta a esses povos que já se amaram, se detestaram, e se amaram de novo, darem juntos risadas das trapalhadas e das casualidades que uniram a Ibéria aos Trópicos.

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