Brasil é destaque na Bienal de Veneza

A primeira Bienal de Veneza deste século, que abrirá oficialmente suas portas em 10 de junho, servirá de plataforma de lançamento de uma agressiva estratégia de divulgação da imagem do Brasil no exterior. A quantidade de exposições preparadas, a parafernália que as acompanhará e o discurso feito pelos organizadores defendendo a equiparação do Brasil com as grandes potências americana e européia - pelo menos no campo das artes - mostram que esforços não têm sido poupados.Além dos artistas selecionados para representar oficialmente o País, que este ano serão Ernesto Neto (também convidado a participar da mostra Plataforma da Humanidade, organizada pela curadoria-geral do evento) e Vik Muniz - estrelas em grande ascensão no badalado circuito internacional - o Brasil ainda estará organizando uma série de outros eventos. Neto e Muniz terão ainda outro espaço para desenvolver seu trabalho, ocupando o primeiro piso do Museu Fortuny. Segundo o curador, Germano Celant, os dois estão em sintonia de pesquisa, partilhando um "mesmo clima cultural e histórico", clima este que está por trás de um certo pensamento sobre arte contemporânea, que pode ser compartilhado no Rio ou em Nova York (onde Vik mora há 17 anos, iniciando aí sua carreira).Dois outros artistas brasileiros também foram lembrados pela curadoria, como representantes da geração imediatamente anterior à dos jovens representantes oficiais e com uma sólida trajetória: Tunga e Miguel Rio Branco. Os dois não são selecionados oficiais, mas expõem no célebre Museu Peggy Guggenheim, localizado no Grande Canal de Veneza.Festa brasileira - Apostando em megaeventos como este, que deve atrair entre 3 mil e 5 mil formadores de opinião de todo mundo, a Associação Brasil +500 convidou o curador italiano Germano Celant para orquestrar essa grande festa brasileira, com a ajuda de uma equipe permanente de auxiliares. Como explicou o próprio Celant, em entrevista coletiva concedida via Internet à imprensa brasileira, o objetivo é fazer com que o impacto mundial da arte brasileira seja imponente, isto é, no mesmo nível que o das potentes representações européias e americanas. Ele não esconde a ambição de trazer o prêmio da Bienal a um dos brasileiros que selecionou.Segundo ele, a Bienal de Veneza não pode ser confundida com uma "arena experimental para descobrir novos talentos". E, com relação à crítica sobre a presença hegemônica de artistas consagrados internacionalmente - em detrimento de representações mais amplas, como já ocorreram nas mostras anteriores, que cotejaram a obra de artistas jovens como Iran do Espírito Santo à experiência central para a produção nacional de um Nelson Leirner -, ele rebate atribuindo à imprensa a eleição desse ou daquele artista como vedete internacional, esquecendo-se que, infelizmente, o que vemos é a mídia seguir a reboque das idéias e teorias de curadores e "managers" culturais.No campo, digamos histórico, ainda há duas mostras a serem mencionadas. A primeira reúne peças do barroco brasileiro, que serão exibidas na Igreja de San Giacomo dall´Orio. E a segunda resgata um verdadeiro "ícone" brasileiro, Carmem Miranda, que dividirá um espaço também no Palazzo Fortuny com uma mostra sobre o carnaval brasileiro, com direito até a uma seleção de fantasias da Imperatriz Leopoldinense."Carmem Miranda teve um papel que deve ser relido pela sua contribuição criativa, no que diz respeito à moda, ao uso de novos instrumentos de comunicação como os filmes. Ademais, sua imagem, enriquecida pela imagem do carnaval brasileiro, alentou o cinema underground americano desde Jack Smith até Andy Warhol", diz o curador, confirmando a tendência cada vez maior de desconsiderar as especificidades nacionais em prol de uma imagem global, sem maiores fronteiras ou diferenças.A escolha do curador atende de maneira precisa a essa preocupação. Celant é um crítico consagrado internacionalmente, ex-curador da Bienal de Veneza (em 1997) e atual curador sênior de Arte Contemporânea do Guggenheim Museum. "Há tempos achava que era hora de contratar um estrangeiro, porque estamos num mundo global", diz Edemar Cid Ferreira, que preside a Associação Brasil +500, ressaltando que isso ocorreu antes de o alemão Alfons Hug ser chamado para curar a 25.ª Bienal de São Paulo. Segundo ele, essa é uma tendência e sugere que outros países façam o mesmo, convidando brasileiros.Como afirma Ferreira, não se poderia perder "essa oportunidade fantástica de mostrar o lado bom do Brasil". Essa oportunidade será ainda maior se considerarmos que, em setembro, Veneza será sede não apenas da Bienal, mas do Festival de Cinema, para o qual Celant está preparando uma mostra cinematográfica.Além de conhecer bem a arte brasileira, Celant foi uma figura-chave para tornar viável a festa brasileira em Veneza, facilitando a obtenção dos locais e o contato com os gestores locais. Ele também reforça a já intensa relação com o Guggenheim sendo também responsável pela curadoria da megaexposição Body and Soul, que apresentará a arte brasileira ao público nova-iorquino em setembro. A realização dessa mostra será anunciada oficialmente na célebre recepção dada pelo Guggenheim às vesperas da abertura da Bienal de Veneza e que este ano homenageará o Brasil.Nessa exposição, o leque de artistas deve ser bem mais amplo, promete Celant. A lista de artistas ainda é segredo, mas ele adianta nomes prováveis como Adriana Varejão, Antônio Manuel e Lygia Pape.Após a festa do Guggenheim, às 18h30, será a vez da recepção organizada para mil pessoas pela Associação. Mesmo sem revelar o orçamento dessa megaoperação nem o nome do patrocinador (que promete anunciar durante a festa), Ferreira garante estar tranqüilo porque, afirma, todos os custos já estão cobertos.

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