"Branca de Neve" sai em DVD

Pense nas três ou quatro maiores animações de todos os tempos. Uma delas terá de ser O Submarino Amarelo, de George Dunning, com (e sobre) os Beatles. As demais serão todas da Disney: a versão antiga de Fantasia, O Rei Leão e, claro, Branca de Neve e os Sete Anões. Foi a primeira animação de longa-metragem da Disney e da história do cinema. Começou a ser preparada em 1934, estreou quatro anos mais tarde. Consumiu tanto dinheiro e energia que Hollywood inteira, na época, só se referia a Branca de Neve como "a loucura de Disney". Lançada nos cinemas, a animação fez tanto sucesso que Disney não só pagou todas as dívidas, como teve dinheiro para bancar a construção de um estúdio moderníssimo para os padrões do fim dos anos 30. Tudo isso é história e merece ser lembrado agora que Branca de Neve está saindo em DVD, para assinalar o centenário de nascimento do grande Walt.Não é um DVD qualquer. Nos EUA, vendeu 1 milhão de exemplares só no primeiro dia. Há novidades importantes. Quando lançou Meu Tio, há alguns meses, a Continental bolou uma espécie de animação para mostrar os extras que acompanham o lançamento da obra-prima de Jacques Tati. Tem a casa do protagonista. Você clica nas janelas e os extras vão aparecendo. A Disney fez algo muito mais sofisticado. Personagem importante da trama, o espelho mágico vira o apresentador, numa animação especial. Ele introduz o espectador no mundo mágico de Branca de Neve e apresenta os bônus criados para esse lançamento. Há o making of de Branca de Neve, sugestivamente chamado "Ela Continua a mais Bela de Todas". Há um jogo interativo, um passeio com Dunga pela mina dos sete anões. Há um desenho da Disney de 1934, A Deusa da Primavera, para você comparar os avanços tecnológicos que culminaram em Branca de Neve. E há um clipe muito especial: a releitura que Barbra Streisand faz da canção Some Day My Prince Will Come. Tudo isso está no DVD. O relançamento simultâneo em vídeo traz só o making of reduzido e o clipe.Barbra virou a atriz e diretora que você sabe. Narcisista, faz filmes em que os protagonistas masculinos ficam o tempo todo dizendo quanto ela é linda e gostosa. Põe ego nisso. Mas a voz é 10 e a recriação delicada que ela faz da canção famosa confirma que Barbra tem o algo mais que sustenta seu mito. A sensação suscitada por A Deusa da Primavera é de outra ordem. Aparecem historiadores de cinema (e da animação) que vêem nesse desenho a gênese de muita coisa que culminou em Branca de Neve. A figura da deusa da primavera, os animais, as flores, todos animados e com muito canto e dança. O conceito pode ser o mesmo, mas A Deusa da Primavera é tão tosco que parece impossível, em apenas três ou quatro anos, a animação ter evoluído tanto para atingir a perfeição de uma Branca de Neve.Mas o melhor - além da própria animação, com certeza - é o making of, que você pode optar por ouvir narrado em português ou no original em inglês, na voz de Angela Lansbury. Aí fica perfeitamente claro o risco assumido por Walt Disney e o por que de sua decisão de se endividar até a raiz dos cabelos para fazer o que ninguém havia feito antes. Disney, naquela época, já era um nome importante da animação. Havia criado Mickey Mouse, o Pato Donald, suas Silly Simphonies eram exibidas como complementos de longas. Mas ele percebeu que não poderia crescer como artista e empresário, se ficasse confinado a esses complementos. A atenção do público ia para o longa.Ele arriscou. Ousou e venceu. Mas a que preço! Foram anos de preparativos, de tentativas, de esboços. A comunidade cinematográfica dizia que o público não agüentaria um desenho longo. Disney sustentava que sim, convencido de que a história adaptada dos irmãos Grimm tinha tudo: uma vilã terrível (a madrasta), ação, humor (principalmente por causa dos sete anões, que ele achava que tinham de ser individualizados em cena), uma heroína maravilhosa e seu príncipe. Romance, portanto.Tudo isso era verdade, mas chegar à formatação da narrativa e ao desenho dos personagens não foi fácil. O making of detalha o caminho seguido pelo projeto. Mostra esboços de como seriam a madrasta, a heroína. Explica como foram criados (ou reproduzidos) os movimentos das figuras humanas, como se processou o casamento entre canções e narrativa. Conta como Disney arriscou tudo o que tinha e se endividou, convencido da excelência do produto que queria lançar. O velho Walt, cujo centenário se comemora este ano, foi um personagem sabidamente polêmico. Anticomunista de carteirinha, reacionário, dedo-duro, fez coisas que não orgulham nenhum currículo. Mas construiu um império do entretenimento e fez obras-primas definitivas da animação. Branca de Neve é uma delas. A complexidade do filme - as implicações sexuais da trama e a extraordinária (e assustadora) fuga da protagonista na floresta - faz de Branca de Neve um clássico para todas as idades. As crianças podem se divertir, os adultos talvez se divirtam mais ainda.Serviço - Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs). EUA, 1937. Clássico da Disney. Distribuição da Buena Vista Home Entertainment. Sexta nas locadoras e lojas especializadas. DVD, R$ 40; vídeo R$ 19,90

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