BRAHMS REDESCOBERTO

Achar peças desaparecidas é frequente; na maioria dos casos, porém, é pouco o valor artístico - e alto o financeiro

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO , O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2012 | 03h09

O culto aos grandes compositores funciona igual ao que gira em torno dos astros de cinema, TV e música pop. Assim como objetos pessoais de celebridades alcançam preços elevadíssimos em concorridos leilões, manuscritos, parcos compassos e autógrafos de Beethoven e Brahms provocam duplo frisson entre os colecionadores profissionais, que os disputam investindo milhões de dólares, de olho em lucros futuros; e entre os melômanos e mesmo os músicos, invariavelmente "encantados" com os achados envolvendo seus ídolos.

Há músicos e musicólogos que fazem uma salada de frutas completa com meia maçã: com menos de dez compassos do ídolo "completam" a obra e a atribuem ao grande compositor. Ganância e tietagem andam de mãos dadas neste terreno. O detalhe perverso é que estas são as raras ocasiões em que os nomes de Beethoven e Brahms, entre outros coroados, rompem o universo erudito e chegam à grande mídia.

O fato é que, na maioria das vezes, o resultado musical propriamente dito de tais detetivescas histórias é parco. Somente nos últimos 12 meses, contabilizam-se cinco ditos grandes achados na música erudita. Beethoven figura no topo, com duas descobertas. No manuscrito de uma carta de 1823, revelado há dias por um descendente do compositor, o harpista Franz Anton Stockhausen, Beethoven queixa-se de doença nos olhos que o incomodava demais ("meu baixo rendimento e minha doença exigem que me esforce para ganhar mais dinheiro"); e por isso pede ao amigo que lhe consiga compradores para sua Missa Solemnis recém-concluída. Renate Wirth, descendente de Stockhausen e dono do manuscrito, avalia a descoberta em 100 mil.

Em setembro, estreou mundialmente em Manchester, a "reconstrução" que o professor inglês Barry Cooper fez do adágio da primeira versão do quarteto de cordas opus 18 n.º 2, de 1799, a partir de 74 compassos tidos como perdidos até pouco tempo atrás e recém-descobertos. O caso é que Beethoven enviou a primeira versão do segundo dos seis quartetos ao príncipe Franz Joseph Maximilian von Lobkowitz em 1799; um ano depois, mandou-lhe uma nova versão, com outro adágio. O manuscrito original perdeu-se e agora foi reconstruído por Cooper, que em tempos passados já tinha sido muito criticado por "reconstruir" o que seria a décima sinfonia de Beethoven com um punhado de compassos. Desta vez, ele dispôs de 74 compassos, ou seja, a primeira versão completa (a segunda tem 86 compassos, 12 a mais). Só que metade deles contém apenas a partitura de um dos quatro instrumentos de cordas. Em todo caso, o resultado pode ser interessante e bem próximo do que Beethoven de fato escreveu.

O inglês Christopher Hogwood, excelente cravista e fundador da Academy of Ancient Music, descobriu por acaso, num arquivo nos EUA, uma "Albumblatt", pecinha para piano descompromissada que os franceses chamavam no século 19 de "feuille d'album", assinada por Johannes Brahms. Ele a compôs em 1853, quando tinha 20 anos e acabara de conhecer Robert Schumann, que o saudou como novo gênio da música e lhe assegurou um lugar ao sol no mundo da música europeia dali em diante. A peça dura menos de 2 minutos. Sem motivo, é saudada como grande descoberta só porque um de seus temas reapareceria 12 anos depois no segundo movimento do trio para trompa.

Obsessão. O caso do finlandês Jean Sibelius é ainda mais rocambolesco. Descobriram-se, há dois meses, três fragmentos de partitura manuscrita, respectivamente com 1 e 2 minutos, e um terceiro com 8 segundos. Com quase certeza absoluta, pertencem aos esboços que o compositor fez para a sua Oitava Sinfonia, já que trazem inscrições como "Sinfonia VIII Commincio". Sibelius está para a Finlândia como Villa-Lobos para o Brasil. Ambos são compositores símbolos nacionais. O frisson foi enorme. A Filarmônica de Helsing já tocou na TV os fragmentos, musicólogos foram convocados. Mas são apenas fiapos sem grande significado.

Há um detalhe que explica tanto agito. Após a estreia da sétima sinfonia, em 1924, Sibelius passou seus restantes 33 anos de vida respondendo à pergunta sobre sua oitava sinfonia - que jamais chegou a ser ouvida. Ele trabalhou nela até meados dos anos 40; e em 1945, num acesso de depressão profunda, promoveu uma fogueira com os manuscritos dela e de outras obras.

Desde a composição do poema sinfônico Finlândia, em 1899, Sibelius transformara-se no porta-voz do povo finlandês em sua luta de libertação contra a dominação russa. Seu silêncio por tantas décadas foi constrangedor. Várias vezes a imprensa internacional anunciou que ele concluíra a oitava sinfonia. Ele também repetiu isso algumas vezes. Até a fogueira final do manuscrito, em 1945. Esses 3 minutos e 8 segundos de música nada significam, quem quiser conhecê-lo deve ouvir com atenção o seu real monumento criativo, suas sete sinfonias completas.

Uma descoberta de fato importante, que se contrapõe a esses "achados", é o fragmento da ópera Orango, de Dmitri Shostakovich, até então dada como perdida, que a pesquisadora Olga Digonskaya encontrou há pouco no Museu Glinka em Moscou e estreou em novembro no Disney Hall de Los Angeles, com semiencenação de Peter Sellars, o barítono Eugene Brancoveanu e a Filarmônica de Los Angeles regida por Esa-Pekka Salonen (o compositor inglês Gerard McBurney orquestrou a ópera a partir do manuscrito da partitura do piano). A história bizarra de um ser metade humano, metade macaco - inspirada nas surrealistas pesquisas genéticas de Ilya Ivanov, que tentou cruzar seres humanos com macacos, tem libreto de Alexei Tolstoy e Alezander Starchakov. O personagem transforma-se num achacador barão da imprensa e ferrenho anticomunista, até que sua humanidade corrompida o faz reverter à natureza animal. Preso, é posto numa gaiola em local público.

É na superfície uma feroz sátira ao mundo ocidental, mas também pode ser lida como crítica velada ao regime - e por isso foi engavetada, apesar de ter sido encomendada pelo Teatro Bolshoi em 1932, para comemorar o 15.º aniversário da Revolução de Outubro de 1917. Os 40 minutos sobreviventes da ópera, em partitura com redução para piano, dão uma ideia do que seriam os quatro atos desta obra que captura Shostakovich num momento criativo privilegiado, ainda sem censura ou pressão política, atrevido, modernista e politicamente corajoso (pouco tempo depois, ele seria achincalhado pelo regime por causa de sua ópera Lady Macbeth de Msensk; e não mais se aventuraria no gênero).

Isso sim é descoberta que altera e reforça traços que já estavam visíveis e audíveis em Shostakovich - e demonstra o maravilhoso experimentalismo radical praticado pelos músicos, artistas plásticos, escritores e criadores em geral curtiram sem limites de outubro de 1917 até o início dos anos 30.

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