Brahms no melhor concerto da temporada

ÓTIMO

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2010 | 00h00

No outono de 1878, aos 45 anos, Brahms apareceu em Viena diante dos amigos pela primeira vez com barba. Era seu new look, tipo sapo barbudo gordo, bem diferente do jovem compositor de 20 anos protótipo do esguio criador romântico, saudado como novo gênio da música do futuro por Robert Schumann em 1853. Era um rito de passagem. Afinal, agora ele se sentia à vontade para enfrentar o passado - dois anos antes estreara sua primeira sinfonia, que o público assistiu anteontem na Sala São Paulo em magnífica interpretação da Orquestra Filarmônica de Dresden e do maestro espanhol Rafael Frühbeck de Burgos. Ouvi-los nos faz imaginar como o próprio Brahms regeu essa orquestra de sonoridades tão específicas. Há uma recusa geral dos instrumentos em gerar estridências: as cordas, soberanas, são macias, escurecidas; o som das madeiras corta o ar aveludadamente; e mesmo os metais jamais abusam do fortíssimo nem fogem de uma timbrística arredondada, sem asperezas - até nos momentos de tutti a plenos pulmões. A enorme segurança de Frühbeck de Burgos fechou o círculo virtuoso que construiu o melhor concerto da temporada até agora.

Contra o passado. Costuma-se dizer que Brahms demorou mais de 20 anos para gestar sua primeira sinfonia, por causa da sombra esmagadora de Beethoven, que inibiu todo mundo com suas monumentais nove sinfonias. O motivo talvez seja outro. Ele foi, com Mendelssohn, o primeiro compositor da história da música que se dedicou à construção de um cânone de obras-primas do passado. Brahms não só olhou para trás como editou as obras de Bach, Haendel, Mozart, Schubert, Chopin, Schütz e Schumann. Tinha em casa manuscritos deles - mas nesse quesito, Beethoven era campeão no seu estúdio.

Mais do que a sombra de Beethoven, o motivo pelo qual Brahms demorou tanto para escrever essa sinfonia e ao mesmo tempo estrear no gênero com tamanha segurança e maturidade, a ponto de citar no fim da sua sinfonia um trecho da Ode à Alegria, último movimento da Nona, é simples: ele foi o primeiro a viver a incômoda situação de enfrentar pencas de obras-primas do passado ao estrear suas obras.

Situação idêntica à dos compositores de hoje em dia, obrigados a competir com o passado e com um público acostumado a ouvir só a música do passado. O alemão Wolfgang Rihm, de 59 anos, autor da primeira peça do programa, Brahmsliebewalzer ou Valsa de Amor de Brahms, optou por capitular, parafraseando timidamente o autor do Requiem Alemão. Com esse tipo de linguagem tão pastichada do século 19, compreende-se a fertilidade burocrática de Rihm, que assina mais de 400 obras.

Sete minutos. Mas foram só sete minutos de Rihm. Moser, o violoncelista que possui o primeiro nome de Brahms, Johannes, e foi medalha de ouro no Concurso Tchaikovsky de Moscou de 2002 (o mesmo que Antonio Meneses ganhou em 1982), precisou de apenas 25 minutos para restaurar a mágica da música praticada em nível superior: afinação perfeita, fraseado e dinâmica impecáveis, Moser contou ainda com Burgos mostrando aos regentes brasileiros como se deve balancear a sonoridade sinfônica com o solista. Numa química perfeita, o Concerto para Violoncelo e Orquestra, escrito por Schumann em 1850, às vésperas de a loucura invadi-lo por completo, soou emocionante como deve ser. Um belo e atormentado canto instrumental interliga os três movimentos numa imensa viagem que tem tudo a ver com a vocalidade, exaltada na empenhada interpretação de Moser, Frühbeck de Burgos e a Filarmônica de Dresden.

Cotação: Ótimo

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