BOWIE DE PERTO

Em Londres, exposição sobre o cantor reúne objetos que ele guardou por anos

ROSLYN SULCAS, THE NEW YORK TIMES / LONDRES, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2013 | 02h11

Uma fotografia colocada discretamente próximo à entrada do Victoria and Albert Museum diz que a exposição David Bowie Is vendeu uma quantidade recorde de ingressos para a abertura, anteontem. Ela mostra o jovem, que começou a vida como David Jones, sentado, vestindo um terno escuro com uma gravata, uma perna apoiada em uma cadeira, onde está uma bateria como o nome de sua banda, a Kon-rads. Uma das mãos segura um saxofone enquanto a outra fica delicadamente sobre o rosto. Ele olha para o mundo admirado, com um ar reservado e, ao mesmo tempo, fascinado.

A pose cuidadosamente coreografada, o rosto angelical e o olhar fixo dão muito a entender sobre o garoto versátil de 19 anos se ficaria conhecido como David Bowie. É imediata a compreensão de sua linguagem corporal, da imagem e da importância da sedução - elementos com um papel essencial na carreira de um pop star, que foi um artista performático bem antes de o termo ser usado no mundo da música.

A ideia da exposição - que vem a São Paulo, em janeiro, no MIS - é ambiciosa. Como mostrar as diferentes faces e nuances - uma das mais novas foi o lançamento de um novo álbum no começo do mês, The Next Day - de um homem ao longo de sua carreira, que reinventa incansavelmente sua persona e sua música com rapidez e imprevisibilidade? Como fazer David Bowie Is algo além do conjunto de artefatos, desde capas de discos antigos e fotografias até uma coleção de figurinos e vídeos? Como exibir o voraz apetite de Bowie, que absorveu e antecipou a cultura e a sociedade de seu tempo? Bowie, agora com 66 anos, está famosamente protegido. Ele não se apresenta em público desde 2006, não dá entrevistas e vive o mais discretamente possível em Nova York, ao lado da mulher, a ex-modelo Iman, e da filha. O lançamento de The Next Day foi uma surpresa para quase todo mundo, até mesmo para o Victoria e Albert Museum. "Mas ninguém acredita em nós", afirma Geoffrey Marsh, que, ao lado de Victoria Broackes, assina a curadoria da exposição.

Em 2010, o museu recebeu um telefonema de um dos sócios de Bowie. "Falamos por alto sobre algumas ideias. Então, ele disse: 'Você tem interesse no David? Sei que ele é uma pessoa que nunca jogou nada fora. Melhor ainda, ele prefere que as coisas dele sejam organizadas", conta Marsh, que viajou a Nova York e encontrou uma coleção de 75 mil objetos separados durante anos por um arquivista. "O acordo foi que pegássemos tudo emprestado, mas que daríamos a nossa interpretação para o que foi catalogado pelo arquivista."

O porquê de o extremamente reservado Bowie, que se recusou a dar entrevista para esta reportagem, aceitaria, a esta altura da vida, abrir seu arquivo, vida e carreira, é uma questão sem resposta. "Ele sente falta de sair fazendo shows. Acho que ele não gostaria de pegar a estrada de novo, mas quer ficar em contato com o público", palpita Kevin Cann, autor da biografia Any Day Now. / TRADUÇÃO JOÃO FERNANDO

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