BOURDIEU CLÁSSICO A CONTRAGOSTO

Sur L'État, reunião de aulas de 1989 a 1992, chega nos 10 anos de sua morte

GILLES LAPOUGE, CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2012 | 03h08

Um livro foi lançado esta semana. Trata-se de Sur l'État (Sobre o Estado). Seu autor, Pierre Bourdieu, morreu há dez anos, no 23 de janeiro. Contudo este lançamento póstumo pela Seuil é o grande "acontecimento" da semana. Bourdieu, que nasceu em 1930, é um dos raros "gurus" do ano literário. E podemos avaliar como o ambiente intelectual francês está "abandonado", há algumas temporadas.

Claro, Paris ainda conta com pensadores, mas alguns são ridículos, como o tal Bernard-Henri Levy, o "filósofo" que impeliu Nicolas Sarkozy a intervir na Líbia para derrubar Kadafi. Outros são mais talentosos, caso de Alain Finkelkraut ou Michel Onfray, mais inteligentes, mais fáceis, simples, e desperdiçados pelo seu sucesso na mídia. Pierre Bourdieu, no entanto, foi o último grande intelectual francês. Depois dele, resta apenas Regis Debray, de 71 anos.

Craig Calhoun, professor de ciências sociais em Nova York, coloca Bourdieu na formidável sequência iniciada em 1945, após a guerra, por uma série de pensadores excepcionais: Jean-Paul Sartre, claro, Lévi-Strauss e Merleau-Ponty. Em seguida, vêm Michel Foucault (e na Alemanha Habermas), Jacques Derrida e o sociólogo Pierre Bourdieu (pessoalmente eu acrescentaria a esta lista o psicanalista Jacques Lacan).

O paradoxo e o poder desse livro de texto inédito estão no fato de que ele foi escrito por um homem que não confiava no Estado e nas suas instituições e que, no entanto, naquela época se exprimiu como "professor do Collège de France", uma instituição prestigiosa (criada na Renascença), e ele próprio estava inserido no sistema cultural institucional do Estado. Em breve, Bourdieu, pensador engajado, crítico e subversivo, dedicou-se a "desconstruir" a imagem do Estado a partir de um dos grandes púlpitos do próprio Estado.

O sociólogo holandês Abram de Swaan sublinha esta singularidade. "Bourdieu não pretendia ser um "puro", mas achava que era possível estar "dentro do sistema" sem pertencer a ele. Homens desta têmpera são "estraga-prazeres". Eles entram no jogo, mas não deixam de questionar as suas regras. E sempre estão mais à frente do que os outros. Tal é a condição do sociólogo. E o que explica por que os sociólogos suscitam tanta animosidade", escreveu ele.

Não entrarei em detalhes sobre esse livro. Seria desonesto porque só o tive em mãos ontem pela manhã e ele tem 664 páginas e a prosa de Pierre Bourdieu é menos cristalina do que a de Hemingway ou a Françoise Sagan.

Contudo, eu o folheei suficientemente para dar uma boa notícia: sua leitura é agradável, enquanto todos os outros livros de Bourdieu, embora magníficos, são difíceis de assimilar.

Por que essa diferença? Os outros livros foram redigidos. Como Bourdieu não tinha "estilo" (ao contrário de um Sartre, de um Foucault, de um Lacan), eles eram pesados, complicados, intrincados e às vezes pedantes. Esse livro, pelo contrário, é o "verbatim" dos cursos dados por Bourdieu no Collège de France, no período 1989-1992. A frase é oral, rápida, amena, sem pedantismos. A transcrição é perfeita. Temos a impressão de ver Pierre Bourdieu refletir em voz alta, suspirar, se corrigir, tremer.

E o Estado? Abram de Swaan resume: "Bourdieu serrava o galho sobre o qual estava sentado. Seus cursos sobre o Estado necessitavam, portanto, de uma introdução particularmente circunspecta: um inventário de códigos pelos quais nossos pensamentos e nossas pessoas são formatados pelo Estado, ele próprio formatado por essas ideias e essas práticas. Após essa introdução, ele passa a estudar a sociogênese do Estado".

O americano Craig Calhoun, de Nova York, completa essas primeiras reações ao livro: "Pierre Bourdieu se tornou um clássico, o que o deixaria muito angustiado". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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