Bossa de pista

Com participação de Orlandivo e João Donato, Clara Moreno lança álbum dedicado ao sambalanço

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

O sambalanço, estilo suingado de samba casado com jazz, é para Clara Moreno "o lado B da bossa nova". Pode ser um B de baile, já que são convites irresistíveis para rodopiar na pista, como nas velhas e boas gafieiras. E como ela tem sempre um pezinho batendo lá, decidiu gravar um álbum inteiro dedicado ao gênero. Hoje ela faz show de lançamento de Miss Balanço, no qual joga luz sobre o esquecido Orlandivo, que saiu da reclusão para cantar com ela uma de suas quatro canções no CD: o clássico Tamanco no Samba, parceria com Helton Menezes, também autor da faixa-título. Outras são Brincando de Samba, Mestiço e Vai Devagarinho, com outros parceiros.

"Ele é o compositor master do disco, que é meio uma homenagem a ele", diz a cantora. "Ele mora no Rio, mas é bem difícil de encontrar, fica na dele, mas caçamos até encontrá-lo, e ele é supersimpático. Fiz o disco todo em São Paulo e fui ao Rio só pra gravar os convidados."

Além de Orlandivo, Clara escolheu pérolas raras como Uala Ualalá (Jorge Ben), Jeito Bom de Sofrer (Wilson Simonal/Jorge Luiz), Pourquoi? (Nega Sem Sandália) (Jadir de Castro/Caco Velho), Deixa a Nega Gingar (Luiz Cláudio), Bruxaria (Elias Soares/Pilombeta) e Samba de Negro (Roberto Corrêa/Sylvio Sion).

"Do que aprendi pesquisando esse repertório e fazendo esse disco, posso considerar o sambalanço o lado B da bossa nova, que marcou uma época, mas as pessoas não se dão muita conta disso. Acho que a gente pode comparar meio com música de periferia de certa forma. Claro que o sambalanço não tem comparação, porque está perto do jazz e é uma música inteligente pra caramba", observa. "Um dos primeiros a fazer isso foi Jorge Ben e a grande sacada dele foi justamente pegar o groove, que é uma coisa de repetição com um conteúdo de jazz nas melodias e harmonias. Esse casamento foi muito bacana, mas essa música não se sobressaiu tanto quanto a bossa nova, sendo da mesma época. E acho que era o que levava os jovens a irem aos bailes dançar, mas só a galera mais agitadinha."

Com sabor de novidade (de tão desconhecidas), canções como as citadas acima se equilibram em Miss Balanço com outras mais conhecidas, como Balanço Zona Sul (Tito Madi) e Bebete Vãobora (Jorge Ben). O projeto foi bancado pelo produtor Joe Davis e lançado em 2009 na Inglaterra. O CD agora ganha edição nacional pela Biscoito Fino e faz par com o também saboroso Só Danço Samba, homenagem de Emílio Santiago ao lendário tecladista Ed Lincoln, que deu o primeiro emprego profissional a ele em sua banda de baile.

Como Emílio, Orlandivo também foi crooner do grupo de Lincoln e ambos foram parceiros em algumas canções. Joyce, mãe de Clara e coprodutora de Miss Balanço com George Freire, era fã da dupla. "Quando a gente foi gravar com Orlandivo, rolou um frisson. Ela falou: "Era a banda que eu ia assistir pra dançar." Foi engraçado", diz. É natural que Joyce traga em seu estilo certa referência a essa vertente: se não basta lembrar de Feminina, vale prestar atenção ao violão que ela toca no disco da filha. "Nem estava previsto ela tocar no disco, mas você percebe no caso de Bebete, que canto com Skowa, que o violão é que leva a música."

Além de Joyce, Clara conta com elenco admirável de instrumentistas: Tiago Costa toca piano e assina os arranjos de 12 das 14 faixas, Tutty Moreno e Edu Ribeiro dividem as baterias, Jorge Helder e Zé Alexandre Carvalho se alternam no baixo, Guello comanda a percussão, Daniel d"Alcantara (trompete e flugelhorn), Ubaldo Versolato (sax tenor e flauta) e Paulinho Malheiros (trombone) formam o naipe de metais; e João Donato toca piano e assina o arranjo de Que Besteira, dele e Gilberto Gil. Clara gravou o disco ao vivo no estúdio, com todos os músicos tocando juntos - situação, ambiente e arranjos mais propícios a ela soltar a voz, diferentemente de outros trabalhos puxados mais para a delicadeza da bossa nova, que exigiam interpretação mais contida.

Clara tinha em mente fazer um tributo a Clara Nunes, mas como? "Gravar repertório de Clara é uma coisa muito delicada porque ela já fez o que tinha de melhor a ser feito com as músicas dela. Só se eu partisse pra uma coisa bem louca, tipo macumba dance", sugere. "Isso deu uma desanimada", mas George Freire tinha um projeto chamado Periferia Bossa Nova, que era todo de repertório de sambalanço. Como o projeto estava engavetado, acabou cedendo a Clara. "Aí comecei a ouvir e conhecer muita coisa. E como já tenho essa coisa animada, que é da minha geração e da minha pessoa, digamos assim, que eu sou superpista, adoro dançar, pra mim caiu perfeitamente." No show de hoje, Clara, que já transitou pela eletrônica, vai sacudir com João Cristal (piano), Marinho Andreotti (baixo acústico), Paulinho Malheiros (trombone) e Michelle Abu (percussão).

Destaques

lTamanco no Samba

Parceria de Orlandivo com Helton Menezes, com participação de Orlandivo no vocal

lBebete Vãobora

Um dos clássicos do cancioneiro de Jorge Ben, em que Clara faz dueto com Skowa

lQue Besteira

Rara parceria de João Donato com Gilberto Gil, com o piano de Donato, que assina o arranjo

lPourquoi? (Nega Sem Sandália)

Samba de Jadir de Castro e Caco Velho gravado pela dupla Elza Soares e Miltinho em 1967

lMais Valia Não Chorar

Composição da dupla Normando e Ronaldo Bôscoli, extraída do repertório de Wilson Simonal, coautor de Jeito Bom de Sofrer com Jorge Luiz

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